Plebiscito na MTV é uma provocação

10/04/1993 - JB TV

Plebiscito na MTV é uma provocação

Plebiscito na MTV é uma provocação

 

Márcia Penna Firme


O videomaker Marcelo Tas não está livrando a cara de ninguém e até o jovem mais engajado vai sentir as alfinetadas que envenenam a campanha de plebiscito da MTV, criada especialmente para o público da emissora. Mas a intenção é incomodar mesmo. A MTV aposta que ferindo o orgulho de cidadão ela vai provocar a participação dos jovens telespectadores nesse momento político do País. Logo de cara, um desafio no slogan da campanha "O que o Brasil vai ser quando você crescer?". Agressivo, debochado, sombrio, mas também engraçado, Tas faz o convite para a briga em sete vinhetas de esclarecimento sobre o plebiscito e exige retorno: não um murro na telinha, mas o voto consciente na urna.

 

"Só tenho duas certezas: nós estamos no Brasil e você tá aí perdendo o seu tempo na frente da MTV. Você lê jornal? Você tem alguma idéia do que está se passando? Você é um cara-pintada, estuda inglês e é fã do Nirvana. Sim, você sabe o que está se passando e só está querendo dar um tempo. E se alguém perguntar? Você vai saber responder qual a forma de governo que você quer para o Brasil?" Essa é uma das provocações de Marcelo Tas na campanha que fica no ar até o dia do plebiscito, 21 de abril, com entradas 20 vezes por dia. "A campanha é agressiva de propósito, para o cara que está assistindo ser apanhado pelo estômago", afirma a gerente do departamento de criação da MTV, Clarice Cohen.

 

Não é a primeira vez que a MTV marca com personalidade a sua maneira de prestar serviço. Já criou campanhas de prevenção contra Aids, pela preservação do meio ambiente e agora, além de ceder o espaço para campanha oficial do plebiscito, decidiu reforçar, preocupada em utilizar a linguagem mais acessível a seu público. “A nossa idéia não é formar opinião. Queremos é provocar a atitude. Na verdade nós achamos que o plebiscito é uma oportunidade de mexer com a cidadania, que precisa ser exercida. As pessoas estão desacreditadas de política e governo. Depois votam e acham que o problema não é mais delas. O negócio é ficar cutucando para tentar que elas se envolvam de alguma forma”, conta Clarice.

 

Cada vinheta tem duração de mais ou menos um minuto. O texto é do redator André Vaisman, com colaboração de toda a equipe de criação e do próprio Tas. Um professor de história, Paulo Pan Chacon, ajudou com palestras para toda equipe, identificando as características das formas e sistemas de governo. A dramaticidade das vinhetas está no uso intercalado de imagens em preto e branco, de ilustrações apresentadas por Tas e, obviamente, a interpretação do videomaker, que alterna inúmeras expressões. Às vezes está ralhando, outras apenas esclarece usando tom engraçado e em algumas chega a debochar. “Sempre num clima de confusão, porque é o que está na cabeça das pessoas”, lembra Clarice.


Entre as vinhetas, uma das mais agressivas é a que utiliza uma pesquisa feita durante os shows do Hollywood Rock. Tas mostra com ilustrações o resultado da pesquisa. “Você é um jovem. Você não sabe muito bem quem você é, mas tem algo que sabe o que você pensa, o que você quer: as pesquisas”, diz Tas.


A parte mais cruel da vinheta comenta percentuais recolhidos pela pesquisa. “Alguns amigos, e talvez você, foram às ruas pedir o impeachment (46%). Alguns de seus amigos, e talvez você ficaram em casa (54%). Você é a favor da maconha (59%), da legalização do aborto (62%). Personalidades símbolos da sua geração: em primeiro lugar, Caetano Veloso e, empatados no terceiro lugar – aí debocha de novo -, Raul Seixas, Paulo Maluf, John Lennon e Fernando Collor”. Para ferir mais, diz: “Muitos de vocês não sabem nem a data do plebiscito”, e mostra o percentual de 81%. E fecha com a frase: “21 de abril, essa é a data para você decidir o que você é, pensa e o que você quer”.