ERNESTO VARELA, O REPÓRTER

13/05/2013 - Revista Trip

Marcelo Tas e Fernando Meirelles
Ernesto Varela, o repórter fictício que perguntava aquilo que todos gostariam de saber, mas ninguém tinha coragem de perguntar, completa 30 anos e ganha um DVD com a sua história. Reunimos seus criadores, Marcelo Tas e Fernando Meirelles, para relembrar os bons tempos.
 
 
Era o dia 3 de setembro de 1984, aniversário do então deputado federal Paulo Maluf. O líder do PDS, partido sucessor da Arena, de apoio ao regime militar, dava uma entrevista à imprensa em um hotel em Brasília quando surge um repórter atrapalhado, de óculos de aros vermelhos, com um bolo de chantili na mão. Ele puxa um coro de “Parabéns pra você”, provocando constrangimento geral. Em seguida, pergunta aquilo que todos gostariam de saber, mas ninguém tinha coragem de perguntar: “Deputado, muitas pessoas não gostam do senhor, dizem que o senhor é corrupto, ladrão. É verdade isso, deputado?”. Maluf olha, dá as costas e sai andando, sem responder a questão. A coletiva acaba.
 
 
A cena é um clássico de Ernesto Varela, o intrépido repórter criado pelo jornalista Marcelo Tas e pelo cineasta Fernando Meirelles, que encarnava o câmera Valdeci, seu parceiro de aventuras. Varela, o “repórter de mentira que entrevista personalidades de verdade”, estreou em um programa da TV Gazeta em 1983 e depois teve encarnações em outros canais, como SBT, Record, MTV e Globo. Em 2013, completa 30 anos de vida e, para comemorar, será lançado um DVD até o final do ano com registros preciosos de sua história, incluindo cenas da campanha pelas eleições diretas no Brasil, entrevista com o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva e gravações em Cuba e na União Soviética. Para encerrar a carreira do repórter, Tas prepara com o cineasta e colunista da Trip Henrique Goldman a série “Varela volta ao mundo”. “Será gravada em cinco continentes para sair em 2015”, adianta. Outro documentário sobre a produtora Olhar Eletrônico, que criou o personagem, está sendo feito pelo diretor Kiko Mollica, do Canal Brasil.
 
 
Trip reuniu Tas, 53 anos, e Meirelles, 57, em um estúdio da produtora O2, em São Paulo, para falar sobre esse personagem que soube unir humor e política como ninguém. “Hoje é normal ter um repórter engraçadinho em Brasília. Vemos no Pânico ou no CQC. Mas na época da ditadura ninguém fazia isso”, diz Meirelles. No encontro, os dois criticaram a chatice e o excesso de regulamentação que imperam hoje no Brasil e que, em casos extremos, tolhem a liberdade de expressão. “Sou muito mais processado hoje do que no regime militar, e por razões muito mais ridículas. Nesse sentido, o Brasil andou pra trás”, afirma Tas. Naquele dia, ele acabava de chegar de uma audiência judicial com um mágico que se sentiu insultado pelo programa apresentado pelo humorista na Band.
 
 
Como nasceu o Ernesto Varela?
 
Tas: A gente tinha essa produtora chamada Olhar Eletrônico. Éramos ruins em tudo, mas pior ainda na frente da câmera. Um dia eu estava em Santos com o Toniko Melo, outro integrante do grupo, e fiz uma reportagem tirando um sarro, num tom de voz que não era o meu. Peguei emprestados uns óculos vermelhos do operador de VT e coloquei. Estava uma temperatura surreal, e eu falei sobre uma estranha variação climática na cidade. Chegamos a São Paulo e o Toniko criou uma vinheta de “Santos urgente”, como se fosse uma notícia de última hora. A gente botou no ar e o pessoal riu. O Fernando olhou e disse: “Porra, e se a gente levar esse cara para outras pautas malucas como essa?”.
 
 
De onde veio o nome?
 
Meirelles: Ernesto veio do repórter Ernesto Paglia. Ele foi o primeiro cara que entrevistou a gente e é meu amigão até hoje. Já Varela era um médico, amigo do meu pai. Doutor Varela era o máximo da sobriedade, um senhor de bigode que andava sempre bem-vestido.
 
Tas: Nossa intenção era dar um nome antigo, que desse uma credibilidade ao repórter fictício. Deu certo. Nos eventos oficiais, meu crachá vinha sempre com o nome de Ernesto Varela e não de Marcelo Tas.
 
 
O fato de o Varela ser um repórter de mentira ajudou a fazer as perguntas mais cabeludas, como aquela famosa ao Maluf sobre se ele é ladrão?
 
Tas: Sempre. O humor dá uma licença muito importante. Quando você joga com o humor, amplia as possibilidades e deixa as pessoas mais despidas. As perguntas do Varela pareciam sem pé nem cabeça, mas eram difíceis de responder.
 
 
Como foi o episódio em que vocês foram detidos em Brasília?
 
Tas: Nós não tínhamos eleições diretas no país e naquele dia poderíamos ter de volta o direito ao voto. Era o dia da votação da emenda de Dante de Oliveira, em 1984. Brasília estava um tumulto. O general Newton Cruz havia fechado as entradas da cidade. A gente saiu do avião e começou a gravar na pista do aeroporto. Passamos por uma fileira de militares e eu improvisei. Falei: “O tempo aqui em Brasília está muito bom, a temperatura está muito agradável”. Os caras esperaram a gente desligar a câmera, nos levaram para uma sala e falaram: “Podem apagar tudo, seus moleques”. O Fernando fingiu que apagava, mas, na verdade, gravou a cara deles. Depois a gente editou o material e colocou tudo no ar.
 
Meirelles: Teve outro episódio engraçado, quando a gente entrou numa garagem e encontrou o José Sarney. O Varela o entrevistou e, no final da matéria, eu perguntei: “Quem é esse cara, Marcelo?”. Ele respondeu: “É um alagoano, acho. Roney, Andrey, algo assim” [risos]. Ele fugiu de todas as perguntas.
 
Tas: Olha a sabedoria do Sarney. Ele apoiava a ditadura, mas percebeu que o barco podia mudar de direção. Ele mudou junto e acabou virando presidente da República. Ele está sempre do lado de quem está no poder e é capaz de iludir até as pessoas mais inteligentes. O Sarney arrasou o Maranhão durante 60 anos, deixou a população em um estado miserável e para quê? Para ter um iate, uma ilha? E ainda vem com esse verniz de escritor intelectual.
 
 
Como foi o comício no Pacaembu em que vocês entrevistaram o Lula?
 
Tas: Foi o nosso primeiro furo de reportagem.
 
Meirelles: Tem furo ali?
 
Tas: Você não sabia?
 
Meirelles: Não. Eu lembro que aparece a Marta [Suplicy] reclamando do [Eduardo] Suplicy, mas isso todo mundo já sabia, né? Ela fala que o então marido tinha mania de política, que a política competia com ela.
 
Tas: Ela dizia que não sabia qual era o prazer da política. Hoje em dia tem orgasmos com a política [risos]! Eu comecei a recuperar essas imagens e descobri que são as únicas desse comício, o primeiro da campanha pelas diretas no Brasil. Temos um documento histórico, Fernando. Além do Lula, também tem o José Genoino, o Hélio Bicudo e vários líderes estudantis da época.
 
 
Vocês têm gravado o episódio em que o Varela vai atrás do empresário José Victor Oliva no banheiro da boate Gallery, em São Paulo, e pergunta como são os ricos na intimidade?
 
Tas: Esse episódio infelizmente eu não consegui encontrar.
Meirelles Aconteceu uma coisa tristíssima. Quando a gente tinha bastante material e achava que aquilo tinha valor, decidimos gravar numas fitas melhores. Um dos nossos sócios trabalhava na Globo e falou: “Eu posso fazer à noite lá, na surdina”. Ele pegou duas caixas com tudo o que tinha do Varela, pôs no carro, parou numa padaria e roubaram o carro dele! Com isso, perdemos um ano e meio de histórias.
Vocês sofreram processos na Justiça por causa do Varela?
Tas: É curioso isso. Fui pouco processado como Varela e hoje eu sou muito mais por causa do CQC. Os processos hoje são por razões muito mais ridículas. Nesse sentido, o Brasil andou pra trás nos últimos 30 anos.
 
Meirelles: Não é o Brasil, é o mundo. A minha teoria é que a indústria dos advogados está fazendo tudo ficar chato. Não é possível fazer mais nada! Eles têm uma profissão chata e, não contentes em ter uma vida chata, querem que a vida de todo mundo seja chata também.
 
Tas: Nos Estados Unidos, essa febre de processos já passou. No Brasil, como a Justiça não funcionava, ninguém processava ninguém. Agora a Justiça ameaçou funcionar e as pessoas começaram a processar. Elas pensam: “De repente ganho uma grana com isso”.
 
 
Quantos processos você tem nas costas?
 
Tas: Vários, mas menos do que quando começou o programa. É um jogo, um Banco Imobiliário do Judiciário. Quase todos os candidatos processam o CQC. Por quê? Para evitar que na campanha eleitoral a gente faça uma perguntinha mais pontiaguda para ele. Isso ocorreu muito na eleição de 2008. Na de 2010 diminuiu e na de 2012, se não me engano, não houve nenhum.
 
 
Já perderam processos na Justiça?
 
Tas: O CQC nunca foi condenado. Pelo contrário, ganhamos vários.
 
 
É mais difícil fazer humor hoje?
 
Meirelles: É, porque você faz uma piadinha com o mágico e vai parar no tribunal por causa disso. Na época do Varela, a gente chutava a canela sem medo. Éramos sempre respeitosos, nunca xingamos ninguém, mas era possível ser contundente e não tinha nenhum advogado ligando no dia seguinte. Hoje é tudo mais cerceado. Se tivesse que pagar todos os direitos autorais, a gente não teria feito nada. Nós pegávamos um filme do Batman, copiávamos e colocávamos no ar. Não tinha que falar nada com ninguém. Ou eu filmava o cara na rua e pronto. Não tinha que levar papelzinho com autorização para assinar.
 
Tas: Éramos fora da lei. Para publicar esse DVD do Varela eu estou sofrendo. A gente pegava um disco dos Rolling Stones e botava na trilha. Agora tenho que ver quantos segundos tem, se aquilo está caracterizado como uma exploração do fonograma X. Cada caso será analisado e, nos mais radicais, vamos ter que criar uma trilha nova e reinserir.
 
 
O que mudou e o que continua igual na política brasileira nos últimos 30 anos?
 
Meirelles: Não tenho dúvida de que hoje há mais liberdade e democracia. Mas a gente sedimentou essa coisa da troca de favor, do político de aluguel. Isso sempre existiu, mas era disfarçado.
 
Tas: Na época da ditadura, a gente tinha uma identificação com a esquerda porque era quem estava lutando contra o regime militar. A minha decepção é que hoje essa esquerda continua vivendo naquela época, em que ou você é amigo ou é inimigo. E o mundo não é mais assim. Muitas pessoas olham o CQC com preconceito. O cara não admite que a gente possa criticar o Lula. Se você discorda dele, recebe um carimbo de que é tucano. Eu acredito que podemos ter uma interlocução com todas as forças da sociedade. Essa é a falha trágica do momento atual. A pessoa não quer conviver com quem ela discorda. Se é evangélico, não quer conviver com os gays. E vice-versa. Assim como os gays criticam o Marco Feliciano [presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara], os gays têm preconceito em relação aos evangélicos. Acham que todo pastor é pilantra e todo evangélico é boboca. E não é. A gente tem que perceber que todos nós somos seres humanos precários, fingindo que não somos mais macacos. O humor é o momento em que você ri dessa precariedade. E nós temos que estar abertos para isso: rir dos outros e de nós mesmos.