Quantas lentes de vídeo e foto apontam para você ao longo do dia? Faça o exercício e tente anotar o número. A conta parece simples, mas pense nas possibilidades: câmeras de celulares, webcam, vigilância eletrônica, câmera de ré nos carros, babás eletrônicas… além das tradicionais câmeras de fotografia penduradas no pescoço de turistas. Estamos tão acostumados com as microcâmeras que, muitas vezes, nem notamos a presença delas.
Se contar todas as câmeras ao redor do mundo, o resultado será 14 bilhões. A estimativa é da LDV Capital que divulgou uma pesquisa neste mês que estima 44 bilhões de câmeras para 2022, um crescimento de 220% nos próximos cinco anos. O aumento seria provocado pela tendência crescente das casas inteligentes com monitoramento remoto, carros automatizados, robôs e os smartphones, claro, que devem contar com até 13 câmeras por aparelho nos próximos anos.
Nos saudosos anos 1980, eu e meus amigos da produtora de vídeo Olhar Eletrônico fizemos uma vaquinha para conseguir arrematar uma câmera de vídeo por alguns milhares de dólares que precisou ser resgatada no Japão.
As cifras e conveniência estão bem diferentes. Com R$100,00 você encomenda uma câmera de segurança com transmissão wi-fi, um celular que tira fotos ou um óculos espião pelas lojas online. Se juntar o dobro disso, já consegue levar pra casa um pequeno drone que registra imagens por apenas R$ 200,00.
Se as câmeras estão ocupando até os céus, a população também está mudando a perspectiva para olhar para exposição das imagens privadas. Com tantas possibilidades de exposição, o entusiasmo por invadir a privacidade ou publicar conteúdos indevidos saiu de moda.
Quem acompanhou os feeds das redes sociais nos últimos dias deve ter cruzado por manchetes dizendo sobre o drone que sobrevoou a casa de Gisele Bundchen e Tom Brady registrando imagens da modelo fazendo topless na piscina abraçada com o marido. O que poderia ser um alvoroço de brasileiros compartilhando a foto virou uma enxurrada de críticas nos comentários. Leitores revoltados pela falta de respeito e invasão de privacidade, um valor que tem ganhado espaço em decorrência de fatos recentes que causaram prejuízos morais e econômicos para vítimas de exposição indevida.
Cercado por tantas câmeras, estamos reaprendendo a lidar com a própria imagem e o zelo pela privacidade do outro. A Constituição Federal e o Código Civil Brasileiro já preveem a proteção da vida privada e a honra individual. Mas muito além dos textos legais, está a consciência de quem registra, armazena, compartilha e é registrado pelas bilhões de lentes que monitoram o mundo.