Compre-batom-compre-batom-compre-batom-seu-filho-merece-batom. Os mais crescidinhos se lembram do mantra entoado por uma criança em um comercial do chocolate nos anos 1990.
A publicidade já foi terra de regras bem mais brandas. Comerciais de brinquedos praticamente sugeriam às crianças fazer chiliques e berreiros com os pais nas lojas em troca do presente anunciado.
Faltava limite. Para definir uma linha do bom senso, o Instituto Alana defendeu que a criança não tem capacidade de discernimento entre publicidade e realidade e articulou com o Conanda – Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – a aprovação em 2014 da Resolução 163 que proíbe linguagem ou trilhas sonoras infantilizadas, uso de personagens ou apresentadores infantis e vários outros artifícios publicitários para dialogar diretamente com o público menor de 12 anos.
A definição soou como exagero para o mercado publicitário. Uma pesquisa divulgada na última semana pelo EIU – Economist Intelligence Unit – analisa as consequências da instrução contra publicidade abusiva. Se por um lado penaliza a participação publicitária no ramo alimentar e comportamental para crianças, por outro, gera uma excelente relação custo-benefício por aumentar a expectativa de uma vida saudável para a população.
Se os comerciais para televisão adotaram a auto-regulamentação publicitária com cenários positivos, o consumo da própria publicidade mudou. O acesso à Internet tem crescido exponencialmente atingindo atualmente a metade da população. No entanto, os efeitos regulatórios na publicidade digital não opera com mesmo rigor. Como monitorar as campanhas em perfis no Facebook, dentro dos jogos e em tantas mídias alternativas online? O próprio relatório do EIU aponta para a dificuldade de monitoramento do meio.
A resolução pode estar a caminho de se tornar obsoleta. Enquanto isso, o conteúdo educativo infantil na televisão aberta brasileira vai de mal a pior. Não existe almoço grátis nem programa de TV sem patrocinador. Se há 10 anos os canais eram repletos de conteúdos direcionados para criança, assim como as séries Ra-tim-bum onde trabalhei e atuei, hoje a grade está preenchida com programas adultos. Este é o efeito colateral mais perverso do veto à publicidade dirigida às crianças. Trata-se de uma solução de pais com problemas estruturais resolvidos, como Suécia e Canadá, como aponta o próprio estudo. No Brasil, uma geração inteira de crianças de baixa renda ficaram desassistidas pela TV, única fonte de informação para grande parte das classes menos favorecidas.
Não é raro eu ser cobrado para voltar a trabalhar com conteúdo educativo na televisão, especialmente pelo público de rendas mais baixas. Como toda decisão que regulamenta aspectos que impactam boa parte da população, emergem ônus e bônus.
Que o estudo do EIU/Alana e o frentista que me questionou a falta de opção de conteúdo na TV para o filho dele estimulem o retorno do debate sobre o tema.