Ao contrário do que todo mundo pensa, Lobão é um gentleman, atencioso e até tímido. Também é ultra-informado, culto e sabe como ninguém contar histórias. Ah, e tem a virtude máxima atingida por um humano: ri de si mesmo.
Já havíamos nos cruzado, é claro, desde os anos 80, passando pelos 90 quando ele teve esse insight de liderar a rebeldia contras as gravadoras que estariam para ruir diante da revolução digital. Profecia totalmente precisa.
Mas agora, quando a gente se encontrou este ano desta vez para valer, com o trabalho diário no Saca-Rolha da Rede 21, viramos instantaneamente amigos de infância.
Eu tenho uma notícia pra vocês. Esta semana ele lança um disco histórico, poderoso, mega inspirado… Ouvi apenas duas faixas, ambas de cair o queixo, tirar as teias de aranha dos tímpanos, animar a vida… O cara não tá de brincadeira.
O jornalista de plantão em O Globo só esqueceu disso: de falar do disco. Ficou preso às palavras e idéias do Lobo sobre o Brasil e o mundo. Que são como sempre inusitadas, corajosas e inteligentes. Deixo um trechinho abaixo pra você ler.
João Luiz (este é o nome do Lobo) faz referência aos seus parceiros póstumos no disco: Júlio Barroso e Cazuza (a mãe dele passou duas letras inéditas ao Lobo); e também lança uma inédita que compos no dia em da morte de Cássia Eller: Boa Noite Cinderela.
Fique atento, o Lobo tá na rua.
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O GLOBO
Segundo Caderno
14/05/2005
— Meu disco é um manifesto antitropicalista. Fico chocado ao ver que, no ano do Brasil na França, quem nos representa é Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Caetano. Esse povo não me representa. A idéia que fazem da gente é de uma coisa primitiva, singela. O que se faz na música brasileira há muito tempo é anódino e paumolescente como a bossa nova e a lounge, que são músicas de elevador — ataca. — É música católica culpada, que faz elegia à singeleza da pobreza. É “Gente humilde”, “Meu guri” e “Construção”, um rococó barroco de proparoxítonas ao luar. Quero dizer que não nos tornaremos uma micareta constante.
— Vivemos o imperativo do gosto europeu. Mas ninguém mais rebola bossa nova em Copacabana. Ninguém vai dizer com tom professoral o que eu sou. Bebel (Gilberto) é um amor, canta bem, mas o que ela faz é um lixo. Maria Rita é o eterno retorno do mesmo — critica. — Este ano, o mercado independente já lançou mais de 300 CDs. Quantos a Universal lançou? É uma ditadura pior que a dos anos 60, quando se torturava e se matava. Hoje o mundo é cor-de-rosa e o mal, impalpável.
— Quando resolvi falar sobre o Leblon, sobre a noite, sobre esse pântano em que transformaram a música brasileira, resolvi botar os meus amigos para trabalhar. Eles fazem uma falta absurda no meio dessa mediocridade pantanosa.
Escrito por Marcelo Tas às 19h31