Está cada vez mais difícil postar aqui. O carnaval pernambucano exige dedicação integral. Não é brincadeira não.
Dediquei o dia inteiro de ontem e o de hoje ao maracatu. Como já contei, surpreendentemente, fui convidado para sair de Caboclo-de-Lança no maracatu A Cabra Alada. Eu sempre fui fascinado pelo Caboclo-de-Lança sem saber o nome e a função dele na folia.
Eles usam aquele manto lindo, chamado simplesmente de “gola”, multicolorido com uma estética e um despreendimento e bom gosto com cores fortes que só o Brasil e poucos países africanos e o México sabem misturar.
O Cabloco-de-Lança é de um ícone de Pernambuco. Tem escultura dele em praças, concessionárias de veículos e piscina de hotel. Chico Science levou a figura dele para o mundo pop.
Ontem pela manhã tive o privilégio de acompanhar a passagem dos maracatus pela casa de Mestre Salu, em Paulista, subúrbio de Recife. Passam por lá para pedir a benção dele antes de partir pelo estado afora. É um ritual absolutamente lindo e delirante. Conheci de perto os verdadeiros Cablocos-de-Lança do Maracatu rural, de onde eles se originaram. São personagens inquietos que circulam e envolvem o cortejo do maracatu como um worm, uma lombriga faminta, que dá um ar de suspense ao ritual. Para fazer crescer a figura do personagem eles usam um enchimento de isopor criando imensos ombros, por onde pendem vários sinos daqueles que se pendura no pescoço das vacas. Assim quando se move pela rua o Caboclo-de-Lança é um azougue visual e sonoro em si mesmo.
Tive o prazer de conhecer o Piaba de Ouro, maracatu do próprio Mestre Salu. E o maravilhoso Estrela Brilhante, de Nazaré da Mata, comandando pelo talentoso Mestre Siba, ele mesmo, ex-band leader do Mestre Ambrósio.
Como se isso ainda fosse pouco, nos intervalos entre um maracatu e outro, ouvíamos Mestre Lua e a molecada daquele bairro, o Tabajara, arrepiando no batuque. Eles tem um CD maravilhoso, faria um tremendo sucesso nas festas e raves paulistanas, chamado Baques à Lua da Lua. Se passar na sua frente, não hesite, é ducacete (ou escreva direto pro mestre Lua (o cara é conectado), talvez ele saiba dizer onde encontrar: luapercussao@bol.com.br).
À noite, na igreja do Rosário, a Noite dos Tambores Silenciosos. Justamente um encontro de maracatus para o ritual de início de um novo ano. Uma cerimônia popular, milhares de pessoas na rua, mas profundamente religiosa. Todos os líderes de terreiro de Recife e Olinda reunidos no mesmo palco para juntos preencherem com precer e mantras africanos o corte dos tambores pontualmente à meia noite. Tudo no escuro, são apagadas ao mesmo tempo todas as luzes do bairro. De arrepiar.
Para mim, ficou clara a minha tremenda cara de pau aceitando o convite para ser um Caboclo-de-Lança logo na minha estréia num maracatu. Aumentou a adrenalina para a saída de hoje à tarde. Se tiver coragem, posto a foto aqui depois. Que os santos me perdoem e me protejam.
Vou precisar de proteção mesmo. Amanhã serei ejetado desse plano direto para a marginal Tietê.
(imagem: www.quatrocantos.com, onde tem mais informação sobre maracatus)
Escrito por Marcelo Tas às 11h31
