Delicioso texto de Ricardo Kotscho, ex-secretário de imprensa de Lula, hoje na Folha (vai copiado abaixo).
Mas me trouxe uma dúvida: por que quando estão lá no poder, pessoas como o próprio querido colega Ricardo Kotscho, não são acometidas da lucidez e elegância demonstrada no texto? O que existe sobre o solo de Brasília que magnetiza todos que por lá se aboletam? Durante o mandato do Ricardo na assessoria de imprensa, por exemplo, o sempre falante presidente do povo não deu uma só entrevista coletiva! Dois anos de silêncio durante o período mais necessário a um presidente vindo do povão falar diretamente de verdade, sem Dudas Mendonças, com seus compatriotas!
Fica uma vontade imensa de que alguém nos explique o que acontece mesmo lá dentro das salas dos prédios do Niemeyer. Que oxigênio é esse que respiram esses políticos no cerrado que os deixa com ares e atos de canastrões de novela mexicana, um tanto Mercadantes, um tanto ACMs? Ah, isso eu queria que o Kotscho me explicasse.
..::..
ARTIGO
O vento virou e eu não percebi
RICARDO KOTSCHO
DO NOMINIMO.COM.BR
Céu azul e mar calmo, desses que chamam de almirante. Saímos cedo de Itapema para o passeio de barco até a ilha de Anhatomirim, na baía de Florianópolis, onde havia um forte que nunca foi usado e virou atração turística. Bem antes do combinado, em meio ao almoço, o velho barqueiro, que havia nos levado à ilha para passar o dia, voltou assustado e gritou: “Vamos embora que o vento virou! Tem que ser já!”.
Em segundos, Mara, minha mulher, o casal de amigos Décio e Lori Moser, nossas filhas e eu pulamos no barco e partimos de volta, sem tempo nem para perguntar nada. O céu pretejou de repente, ondas enormes se formavam à nossa frente, a chuva de vento veio forte e não se enxergava nada, muito menos terra à vista. O barquinho ziguezagueava meio à deriva, subindo e descendo as ondas, o motor rateando, o filho do barqueiro ajudando a abrir caminho com o remo. O passeio virou um tormento. Só me restava rezar. Nunca passei tanto medo na minha vida.
Uma eternidade de meia hora depois, já na praia, o homem que nos salvou a vida e a dele, um pescador de barba branca que pensava saber tudo do mar, benzeu-se, beijou o filho e confessou que nem ele tinha visto coisa igual. Tomamos uma garrafa de cachaça no gargalo e, refeito do susto, comecei a pensar como o nosso destino pode mudar de uma hora para outra, dependendo da vontade do vento e de como reagimos à mudança do tempo.
Por que esse episódio me veio à lembrança enquanto tomava um café na bucólica alameda Lorena, perto de onde moro, bem longe do mar? É que li, numa pequena nota na coluna de Tereza Cruvinel, em “O Globo”: “Aqui em Brasília, o tempo virou de vez: chegaram juntos o frio, a seca e o pico da febre política que acomete o governo desde fevereiro”.
Nem faz tanto tempo, foi no começo de abril, neste mesmo canto do NoMínimo, escrevi um artigo com o título “Bons tempos, esses”. Era sobre um jantar na casa do escritor Fernando Morais em que reencontrei velhos amigos e um baita alto astral, um pessoal de bem com a vida. Saí de lá feliz e resolvi contar uma história diferente, sei lá. Queria apenas fazer um contraponto, cair fora da mesmice da desgraceira geral, mostrar que, apesar dos juros, da corrupção e da violência, também tinha coisa boa acontecendo, mas os leitores não gostaram.
Recebi uma tonelada de críticas, algumas até grosseiras. Faz parte do ofício. Ao contrário do que acontecia nos jornais e nas revistas em que trabalhei, onde eram raras e demoravam a chegar as cartas de leitores sobre o nosso trabalho, agora na internet a reação é imediata, fulminante. Deu para sentir que o pessoal anda tão bravo com a situação que não admite alguém falar em coisa boa.
Ao bater de frente com o assustador noticiário dos últimos dias e a nota da Tereza Cruvinel, fui entender a justa revolta dos leitores comigo: o vento virou e só eu não percebi -eu e muitos amigos do governo em que trabalhei nos últimos dois anos. Trancado para escrever no apartamento, de onde só tenho saído para buscar a neta no berçário e dar algumas voltas no quarteirão, não me dei conta da radical mudança no tempo, que virou de vez o humor das pessoas. De volta à realidade, como escrevi outro dia, acabei me afastando dela, como notaram os leitores. Chove, depois de longa estiagem, os dias andam cinzentos e as noites paulistanas não convidam a sair de casa.
Procuro descobrir onde foi, em que momento a coisa virou, pois não se trata de um fato ou outro, isoladamente, mas do conjunto da obra. A inflação continua sob controle, a economia, as exportações e os juros crescendo, o desemprego diminuindo, os números não mudaram. De repente, porém, você pega os jornais e não sobra pedra sobre pedra no cenário político, pinta um clima de fim de feira moral, de desesperança, de indignação, de salve-se quem puder, tudo ao mesmo tempo. É um velho filme que não gostaria de ver mais, mas que voltou às telas da vida.
Dá para ficar assustado, como aquele dia no mar de Santa Catarina. O pior é que não há sinais de terra à vista e, em meio à tempestade, está cada um remando para um lado, querendo se salvar sozinho. Nessa hora, como diria o experiente pescador, muita calma -em vez de buscar um culpado, talvez seja melhor procurar uma saída. Afinal, estamos todos no mesmo barco.
Ando numa fase de lembranças. Outro dia, quando li sobre a ida da Ana Paula Padrão para o SBT, me recordei de um episódio acontecido durante a campanha presidencial de 2002. O candidato Lula e o então presidente nacional do PT, hoje ministro José Dirceu, foram visitar Sílvio Santos, o dono da segunda maior rede de TV do país.
Lá pelas tantas, entre uma gargalhada e outra, Sílvio começou a explicar por que o jornalismo tinha sumido da grade de programação da emissora: dificuldades para contratar um(a) âncora.
“Você não sabe, Lula, como é difícil. Gosto muito dessa Ana Paula Padrão, da Globo. Ofereci a ela R$ 150 mil por mês! Quatro vezes mais do que ela ganhava lá! Aí deram um aumentinho pra Ana Paula na Globo, e ela acabou não vindo…”
Depois de falar de outros convites feitos e não aceitos, o homem do baú revelou que chegou a pensar em importar um âncora da Argentina (isso muito antes de Tevez & Cia. no Corinthians).
“Conheci um apresentador de telejornal argentino fantástico. Um homem bonito, você precisava ver, voz forte, dicção perfeita. Mas ele não falava português…”
Era só o que faltava: um telejornal com legendas.
Três anos e muitas mudanças de vento depois, Ana Paula acabaria aceitando o convite de Sílvio Santos.
Ricardo Kotscho é jornalista e ex-secretário de Imprensa da Presidência da República
Escrito por Marcelo Tas às 08h55