
Dunga foi alçado ao posto de técnico da seleção brasileira sem nunca ter dirigido um só time de futebol na vida. Seria só mais um sapo para eu ter que engolir no meio dessa surrealista lógica brasileira. Não estivesse lendo no momento o precioso “Do Golpe ao Planalto”, diário de bordo do jornalista Ricardo Kotscho, ex-assessor de imprensa do presidente Lula.
Com muito cuidado e elegância- Kotscho é amigo pessoal de Lula há mais de duas décadas- Ricardo nos leva aos bastidores do início do governo Lula. Mostra, mesmo nas entrelinhas, como as coisas são decididas no PT de forma geral, e ao redor de Lula em particular. Ficamos sabendo que o primeiro ministro a ser convocado para uma reunião privada com o presidente e ser formalmente convidado foi Roberto Rodrigues, latifundiário mineiro, tucano, que havia apoiado José Serra. Já o futuro ministro da educação, Cristóvão Buarque foi alçado ao posto durante uma carreata comemorativa da vitória à Garanhuns, terra natal de Lula. Ficou sabendo que seria ministro junto com o povo que ouvia o discurso.
Kotscho é jornalista admirado e respeitado na nossa classe, inclusive por este que vos tecla. Também é alma leve e pacífica. Mesmo com sua escrita cuidadosa e sem rancores da experiência cavernosa que viveu no poder, deixa pistas sutis porém claras da selvageria que foi a subida ao trono da petezada. “Agora você vai conhecer melhor os companheiros”, anotou o conselho de um amigo petista depois de ser convidado por Lula a trabalhar no Palácio.
Estou lendo uma prova do livro, enviada pela Companhia das Letras, que deve ser lançado no próximo dia 14 de Agosto. Imperdível.
Escrito por Marcelo Tas às 09h06