Numa noite cheia de sorrisos, um leilão beneficente em 16 de Agosto de 2010, diante da primeira dama Maria Letícia, Eike Batista arrematou um paletó do então presidente Lula por R$ 500 mil reais. O então bilionário carioca era o brasileiro mais rico do país e tinha muitos negócios vinculados ao governo federal. Não é tão difícil ligar lé com cré, né? Fui até o Twitter e disparei uma perguntinha ao bilionário generoso: R$ 500 mil reais num paletó é caridade ou gratidão?
A fagulha deu início a um duelo virtual animado entre o Professor Tibúrcio e o Tio Patinhas tupiniquim. A rede social ficou em chamas naquele dia. Rendeu até matéria de jornal.
Mais tarde, em 2013, quando a farra do PAC- Programa de Aceleração do Crescimento- de Lula começava a mostrar a sua verdadeira face com os escândalos de corrupção chegando aos bilhões, escrevi o texto abaixo contextualizando a história na Folha de S. Paulo.
No dia de hoje, enquanto escrevo, Eike é um foragido da Justiça, procurado pela Interpol. A eletrizante história do Brasil não para. Faço abaixo uma reconstituição dos posts no Twitter, naquele agora longínquo Agosto de 2010, para que você entenda melhor os fatos que agora se materializam diante dos nossos olhos.

Troca de tweets com Eike Batista em agosto de 2010
Reprodução Twitter
O tampinha e o pau-Brasil
O Brasil tem este nome por causa de uma árvore. Depois do descobrimento, arrancar o pau-brasil do solo pátrio e exportá-lo para a Europa passou a ser a nossa primeira atividade econômica.
Se hoje extraterrestres redescobrissem o Brasil, pela mesma lógica, o país poderia ser rebatizado de Minério de Ferro, Soja ou Carne Bovina. O modelo econômico ainda é o mesmo: exportar commodities a preço de banana.
Tenho 4,9 milhões de seguidores no Twitter. Um deles é o homem mais rico do Brasil. Quer dizer, era.
No último ano, Eike Batista, dono de um império de mineração, perdeu US$ 34 bilhões.
Antes da dinheirama evaporar, Eike e eu tivemos uma discussãozinha na rede social. O então megabilionário não gostou da minha tese sobre as ajudinhas que as empresas dele recebiam do BNDES para manter a nossa sina de exportador de matéria-prima.
Ferido, ele atirou: “Quem é esse Marcelo Tas?”. É compreensível Eike ignorar a minha existência. Enquanto ele comanda –ou comandava– um império de dezenas de bilhões de dólares, eu comando um programinha de humor na televisão.
Ferido, eu respondi: “Pergunte aos meus milhões de seguidores, seu tampinha!”.
Juro que a minha intenção não era zombar da estatura mínima do megabilionário, que, como Donald Trump, também usa peruca; mas do fato de ele ter poucos seguidores no Twitter. Em minutos, meu telefone toca. É um assessor dele me convidando para almoçar e fumar um “cachimbo da paz”.
Na mesa, somos mais de dez pessoas: engenheiros, economistas, assessores de imprensa… Gentilmente, Eike pede licença para me mostrar um vídeo com o resumo dos planos dele até 2038.
Ao final do audiovisual –com navios e tratores se movimentando sobre o mapa-múndi ao som de música eletrônica barata–, o bilionário aguarda a minha reação com um sorriso vitorioso.
“Eike, onde você vai encontrar engenheiro para tudo isso? Fazer o Brasil crescer sem cuidar da educação é como construir palácios sobre areia movediça.”
Ele me devolve a pergunta: “Já pensou em ser político?”. “Sim, serei candidato a presidente do Brasil em 2038!”, respondo. “Me aceita como tesoureiro?”, ele emendou.
A mesa explode numa gargalhada, encerrando o almoço em tom amistoso. Na saída do evento, um assessor do bilionário me confidenciaria ao ouvido.
“Rapaz, você não sai mais da cabeça do Eike. Na semana passada, a caminho de uma reunião importante, em plena Park Avenue, em Nova York, ele se virou para mim e perguntou: “Fala a verdade, você acha que eu sou um tampinha?”.
Publicado originalmente em 31 de dezembro de 2013 da Folha de S. Paulo.