
Pago aqui parte da imensa dívida que tenho com estudantes que me procuraram nos últimos dois meses para entrevistas para trabalhos de escola e TCCs.
Vão perguntas e respostas abaixo sobre o palpitante tema das eleições municipais e da série “Tas na Zona Eleitoral”, produzida e publicada aqui no UOL.
Oportunamente prometo juntar outro pacote de perguntas e publicar aqui no blog. Desculpem a demora, obrigado pelo interesse e paciência.
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1) Como surgiu a idéia de fazer a série “Tas na Zona Eleitoral”? É difícil discutir política na sociedade?
É difícil. Sobretudo porque justamente na época das eleições a Lei Eleitoral cria amarras jurídicas que impedem o verdeiro debate eleitoral. Na minha visão, essa Lei tornou-se um instrumento de censura à livre expressão.
No “Tas na Zona” resolvemos fazer uma discussão didática sobre o próprio significado e origem das eleições. Até mesmo sobre a origem das cidades e da necessidade de escolhermos prefeitos e vereadores. Assim, do zero, acreditamos que provocamos o eleitor a refletir melhor e a valorizar o seu voto.
2) Você acha que a situação eleitoral no Brasil está mesmo uma zona, no sentido negativo da palavra? Por quê?
Infelizmente, sim. Apesar o brasileiro vir melhorando homeopaticamente a pontaria do seu voto nesses últimos 20 anos, acredito que a o debate político e a qualidade dos candidatos são vergonhosos. E olha que estou usando uma palavra bem caridosa.
3) A presença dos “candidatos celebridades” evidencia a banalização da classe política brasileira? Você votaria no Frank Aguiar para prefeito de sua cidade?
Não tenho preconceito contra quem resolve mudar de profissão. Mas creio que a maioria desses candidatos celebridades são figuras anêmicas politicamente, que se deixam enganar por tubarões políticos que sugam a popularidade deles. Este, infelizmente, é o caso do Frank Aguiar e de vários outros. É bom lembrar que muitos, felizmente, foram reprovados pelo povo nas urnas.
4) O que você acha das campanhas de conscientização política vinculadas na mídia pelo TSE? A postura do brasileiro poderá mudar diante das urnas?
Gostei da campanha deste ano, que soube balancear clareza, agressividade e criatividade. Agora, a postura do brasileiro nas urnas só muda com uma verdadeira política pública de educação. O que não ocorre neste país, verdadeiramente, há 500 anos.
5) Como você avalia a cobertura das eleições feita pela imprensa? Ela está cumprindo o seu papel? Se não, no que está errando?
A cobertura melhorou significativamente. Temos hoje múltiplas fontes de informação, além de um jornalismo mais maduro e eficiente. Entretanto, a Lei Eleitoral, aqui já comentada, compromete profundamente a atuação dos jornalistas a ponto de tornar a cobertura muitas vezes insípida e até incorreta.
6) Você também comanda o Custe o Que Custar (popular CQC), na Band. No qual muitos políticos ficam na “saia justa” devido às brincadeiras que são feitas a eles. Como vocês querem atingir o público ao fazer isso?
Penso que o humor ajuda à reflexão. Serve como uma provocação para o eleitor-telespectador olhar a realidade política com outra lente. Os candidatos mais inteligentes e bem-humorados também já perceberam que o CQC pode ser um canal, talvez o único, para conectar o debate político com o público jovem, que já estava de saco cheio do rame-rame eleitoral.
7) Muitos jovens defendem o voto “em branco” como forma de protesto. Seria esta uma noção de cidadania correta?
Não acredito na força do voto em branco, nem do voto nulo. Tecnicamente ele beneficia quem está na frente. Tem muita gente “revoltada” que não sabe desse detalhe e, com esse gesto inútil, acaba transferindo mais poder para quem já tem poder.0
8) O “bom político” é um mito no Brasil? A inexistência da ética no cenário político geral dificulta uma avaliação justa de boas atitudes?
Acredito que esse cenário tem mudado a cada eleição. Temos hoje uma série de políticos, ainda poucos é verdade, que conseguiram virar referência de ética para o eleitor. O político que for inteligente vai perceber rápido que a transparência é cada vez mais valorizada pelo eleitor. E fácil de se comprovar pelas ferramentas digitais. Portanto, acredito que quem insistir em lugar contra a maré da cidadania e da ética pode morrer na praia. Mais cedo ou mais tarde, o crime não compensa.
9) A internet ainda não é um meio acessível a todos. Você já pensou em vincular o “Tas na zona eleitoral” em outros meios de comunicação?
Sim. Este ano, ele foi veiculado na TV Câmara, vinculada ao Congresso Nacional. Eles entraram em contato com o UOL pedindo para veicular a série lá e nós autorizamos.
10) Na sua opinião, Tas, o voto é um direito ou um dever? Por quê?
O voto é um direito mas não um dever. Sou favorável ao voto facultativo. Em uma democracia de verdade, o voto não pode ser obrigatório. Essa obrigação favorece e mantém muitos currais eleitorais no Brasil. Especialmente no nordeste.
Escrito por Marcelo Tas às 17h04