– Como assim não quer pagar?
– …
– Que qué isso rapaz, ainda faltam 30 mil!
– …
– O quê? Virou o numerozinho do ano e o prefeito já quer melar o contrato? Mando retirar a placa dele lá na obra agorinha mesmo.
-…
– Desculpa benhê, nego não deixa a gente relaxar…
Sob a barraquinha da Elma Chips, o jovem e obeso empresário do nordeste se protege do sol. Mas o celular teima em não deixá-lo curtir sua cervejinha e acompanhante em paz. Esta foi a cena mais frequente das minhas férias. Gente tentando se divertir e continuar trabalhando ao mesmo tempo.
Dentro do business center do hotel, um operador da bolsa argentino tenta “segurar o astral” da Bahia, sem disfarçar a impaciência com os olhos na tela e ouvidos no telefone com o escritório em Buenos Aires. Sob um coqueiro verde e a brisa que balança suave a preguiça da manhã, uma executiva na faixa dos quarenta, lamenta não poder atender o cliente que a quer em São Paulo para uma reunião no dia seguinte. Desliga praguejando os organizadores da São Paulo Fashion Week por agendar o evento para janeiro.
– “Assim fica difícil atender a Motorola”, resmunga com forrrrrrrrrrte sotaque carioca, sem se importar com a presença dos desconhecidos ao redor. Aliás, como fazem despudoradamente todos os que falam em público ao celular.
E agora, o que cada um de nós, trabalhadores da era digital, deve fazer para sair dessa: cortar os pulsos ou os fios da tomada? O fato é que no mundo mega conectado as férias, como conhecíamos anteriormente, acabaram. Para sempre.
O blog está de volta. Bem-vindos!
Foto: Marcelo Tas
Escrito por Marcelo Tas às 10h21