
Depois da surpreendente carta de Luciano Huck publicada na Folha segunda passada, já comentada aqui, os veículos tradicionais e a blogosfera tentam recomeçar a semana com o mesmo assunto. Só que, infelizmente, a conversa já desandou. Por que no Brasil uma polêmica não se sustenta sem cair no bate-boca banal binário futebolista de arquibancada: você é do mal, eu sou do bem?
Veja entrevista Huck nas páginas amarelas para um tatibitati que nada acrescenta ao texto original publicado na Folha. Enquanto isso, a própria Folha convoca o escritor da periferia Ferréz para que ele chute o balde com um festival de obviedades primárias. Ou seria primitivas? Ferréz diz lá que é correto assaltar já que a TV é a culpada por acender nos “mano” o desejo de consumir. Curioso que Ferréz, um “mano” esperto, que soube dar uma volta na vida, publicar livros e abrir lojas da sua grife por São Paulo, negue o mesmo caminho do talento e do trabalho para os jovens da periferia. Trata-os como zumbis babões hipnotizados que só pensam em comprar um tênis novo e nada mais. Fora eu um autêntico “mano” do Capão, ia até a casa de Ferréz tirar satisfação por ter sido chamado de burro e idiota por ele.
Well… para mim, o assunto, importante, diluiu de vez. Quem se interessar, abaixo vai trecho da carta de Ferréz (assinantes da Folha e UOL lêem aqui na íntegra).
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Pensamentos de um “correria” (Ferréz)
… a hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos!
Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa. Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou.
No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.
Escrito por Marcelo Tas às 09h08