Os anjos do cinema devem estar atarefadíssimos. Em uma semana, tiveram que cuidar de dois mestres de uma só vez: Bergman e Antonioni.
Aqui vão duas dicas para quem ainda não dedicou seus olhos a esses criadores de imagens geniais.
“Zabriskie Point” é o nome de um deserto na região do Death Valley, o Vale da Morte, na Califórnia, EUA. É o cenário do ousadíssimo filme de mesmo nome de Michelangelo Antonioni. Explodiu a linguagem, a temática e os miolos dos caretas que esperavam dele um filme- a primeira superprodução de sua carreira bancada por Hollywood- com começo, meio e fim.
A trilha sonora traz Pink Floyd, Rolling Stones e The Grateful Dead. E uma das cenas de sexo mais inusitadas e lindas do cinema. Precisa dizer mais alguma coisa?
Já Ingmar Bergman foi um homem mais fechado em seu próprio trabalho e país de origem, a Suécia. Vivia recluso no fazer cinematogrático, sempre com a mesma equipe, onde se via com assiduidade lindas atrizes louras, brancas e perigosas como uma tempestade de neve.
Tive que assistir muito “filme cabeça” para poder namorar as meninas nos anos 80 até gostar realmente de Bergman. A velhice o fez muito bem. Foi transformando sua acidez em ironia. Se dedicando mais ao teatro e aos atores. Cheguei a ver uma peça dele em Nova York, no BAM- Brooklyn Academy of Music- no final dos anos 80, uma adaptação de Hamlet, onde havia uma aparição de Batman, o homem morcego dos quadrinhos.
Mas seu lugar foi o cinema. E sua obra-prima, sem dúvida, é “Fanny e Alexander”. Uma obra monumental em todos os sentidos. Originalmente era uma série para TV, de quatro episódios, que Bergman cortou para pouco mais de duas horas, transformando-a num dos clássicos do cinema mundial. A ação se passa na Suécia, no início do século 20, numa família enorme onde vemos a crueldade, o autoritarismo, a loucura, a ternura e o amor dos homens. Alguns consideram a autobiografia do cineasta. Sugiro com ênfase que se veja, depois de se ver o filme, é claro, o The Making of Fanny and Alexander. Uma preciosidade. É Bergman de bem com a vida e com seu passado conturbado.

Escrito por Marcelo Tas às 09h44