Existe “cara de gay”? A resposta é não. Assim como não há traços faciais que determinem o comportamento social. O raciocínio retoma pensamentos do século XIX quando cientistas de diversas áreas tentavam encontrar correlações entre traços genéticos e atitudes comportamentais.
Assim como a memória de computadores falha, a dos humanos também está sujeita a apagões. Para reacender o debate e recordarmos de passos tortos já dados pela ciência, uma pesquisa divulgada na semana passada propõe criar um algoritmo supostamente capaz de prever se alguém é gay ou não.
A precisão registrada foi de 81% entre homens e 74% entre mulheres. Quando o sistema recebe pelo menos cinco imagens da pessoa a ser analisada, o acerto aumenta para 91% entre homens e 83% entre mulheres.
Para realizar a pesquisa, os cientistas usaram 35 mil imagens de rostos retiradas de sites de relacionamento nos quais o usuário posta a sua imagem e indica sua orientação sexual. O estudo identificou que homens homossexuais tendem a ter maxilas mais finas, nariz mais cumpridos.
Correlações entre traço e comportamento sempre podem ser identificadas. No entanto, não há relação de causa e efeito. Isso é, não é porque você tem maxilar fino será gay. Assim como quem é gay não necessariamente tem maxilar fino. Parece óbvio, mas alguns cérebros humanos ainda não pegaram a lição.
Imagine uma empresa de recrutamento e seleção contratar um algoritmo que pretende prever pela foto do canditado quem tem maior tendência a ser um bom trabalhador, honesto e sem previsão para cometer crimes dentro da empresa? É para este tipo de perigo que a pesquisa de Stanford convoca nossa atenção.
Há mais de cem anos, o psiquiatra, antropólogo e criminologista italiano Cesare Lombroso defendia o determinismo biológico – uma suposta relação entre a anatomia do humano e a propensão para o indivíduo ser criminoso. Para isso, ele buscava o porte físico típico de quem comete crimes.
No mesmo caminho, em 1902, L.A. Vaught publicou um livro que previa traços para o honesto e o preguiçoso. A análise seria especialmente a partir do formato da cabeça, nariz, orelha e queixo.
O próprio Partido Nazista alemão adotou a linha de pensamento para determinar traços físicos que definiriam a raça ariana prevendo um tipo humano nobre, superior aos demais.
As linhas de pesquisa já caíram por terra. Assistimos na Segunda Guerra Mundial as consequências dessa crença. Antropólogos e cientistas sociais passaram a última década apontando as falhas deste pensamento.
A capacidade humana sobressai às inteligências artificiais quando extrapolamos a visão de correlações e ponderações numéricas para buscar novas conexões e estarmos abertos para as diferenças e complexidades dentro de cada humano.
Para estimular o poder humano de olhar o mundo com tal beleza, a arte é uma ferramenta fundamental.
Conviver e aprender com a diversidade humana é um aprendizado que precisamos aprender. É o que revela o encerramento forçado da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira” que deveria estar aberta ao público até 8 de outubro, no Santander Cultural de Porto Alegre.
O que tinha a intenção de valorizar a diversidade sexual, virou alvo de protestos de movimentos, incluindo o MBL (Movimento Brasil Livre), que condenaram a exposição como uma vergonha gaúcha e apoiaram a censura. Não é uma contradição para um movimento que usa a palavra “Livre” no nome nome? Ou seria propaganda enganosa o próprio nome do MBL?
O episódio escancara o que os pesquisadores de Stanford já previa: precisamos parar para estudar os algoritmos a caminhos que conduzem nossos pensamentos. Em tempos de machine learning e inteligência artificial, chegou a hora de recuperarmos o valor do capital humano.