
Calma lá. Antes de tudo, duas coisas. UM: respeito e admiro a obra do artista Gilberto Gil. DOIS: cheiro de bumbum de bebê não significa necessariamente cocô, mas bumbum de bebê. Ou seja: as vezes cocô, as vezes aquele cheirinho suave de talco. Tão suavezinho que é quase um cheirinho de nada. Pois essa é minha avaliação do mandato tropicalista de Gil no Ministério da Cultura: um quase nada.
Dizem os favoráveis à gestão Gil que o ponto forte dele foi “trabalhar a imagem do Brasil no exterior”. Well… até aí morreu Neves. Como grande músico e compositor que é, Gil sempre fez bem o papel de representar a cultura brasileira no exterior. Mas será que criar eventos de axé music em Paris deveria ser o ponto alto de alguém com a responsabilidade de zelar pela cultura num país continental e raquítico de informação cultural como o nosso? E mais: quais foram as políticas públicas implantadas efetivamente por Gil? O que foi efetivamente criado ou aperfeiçoado pela gestão do Ministro? Infelizmente, ficaram muitos discursos e promessas no ar, sobrou pouco ou quase nada sobre a terra.
Tudo bem, vamos admitir que a vantagem de Gil é justamente a comparação com seu antecessor: um verdadeiro zero à esquerda. Na comparação, Gil provavelmente foi um dos melhores ministros da Cultura dessa República. Justamente porque o professor Francisco Wefford, único petista no governo FHC, foi certamente o pior Ministro da Cultura da História do Brasil. Coroou sua pastosa gestão, cheia de pose e nulidades, com a publicação de um livro capa dura caríssimo, subvencionado pelo estado evidentemente, dele próprio!
A situação das salas de cinema brasileiras, abordada recentemente aqui nesse blog, é um exemplo cabal do raquitismo das políticas públicas implantadas durante o longo reinado de Gilberto Gil. Atualmente, 93% das cidades brasileiras NÃO tem sala de cinema alguma. O país tinha uma ótima legislação que permitia investimento 100% dedutível de IR pra construção e recuperação de salas de cinema. Conheço gente jovem, entusiasmada para colocar a mão na massa, que chegou a desenhar projetos de implantação de salas de projeção digitais pelo interior. O digital evidentemente é a saída mais racional e adequada para um país com as nossas condições e dimensões. Mas esses empreendedores tiveram as pernas quebradas pelos burocracratas de “esquerda” da Ancine. Os caras derrubaram a legislação por temer o “progresso” ou o “lucro” desenfreado da empreitada. Atualmente, o custo de instalação de novas salas é proibitivo. A situação da distribuição de cinema no país continua nas mãos das mesmas forças. Os estúdios norte-americanos continuam nos tratando como a casa da mãe Joana. Despejam aqui o seu lixo em estado bruto sem serem incomodados por qualquer tipo de política regulatória como acontece em países que prezam por sua cultura como a França, a Alemanha ou mesmo a Argentina.
Situação parecida ficou a área da televisão e novas mídias, um dos temas preferidos de Gil. Se conseguiu marcar posição (com poucos avanços concretos) em relação a temas importantes como Software Livre e Creative Commons, Gil perdeu a queda de braço para o ministro Hélio Costa, das Comunicações, na implantação da tão aguardada TV digital. O novo paradigma tecnológico, com um potencial cultural gigantesco, até agora não trouxe efetivamente nada de novo. Pelo contrário, da maneira como foi implantada a TV Digital brasileira reforça os pilares dos currais eleitorais eletrônicos criados na tenebrosa era José Sarney.
Resumo da ópera: a ausência de políticas públicas consistentes do mandato Gil deixou tudo, ou quase tudo, como antigamente, quando Gil cantava que a alma dele cheirava talco como bumbum de bebê. O mesmo cheiro, sinto muito mesmo em dizer, da sua fraquíssima passagem pelo famigerado Ministério da Cultura.
Imagem: The Stay at Home Mother
Escrito por Marcelo Tas às 09h13