A foto aí (Allan Marques/ FSP) mostra que o exato instante ontem quando um desempregado ameaçou se atirar sobre os senadores em Brasília. Pelo menos por alguns segundos, Sarney e seus amiguinhos sentiram um pouco da temperatura das ruas lá dentro do ar-condicionado carpetado do Senado.
Como definir o que sentimos diante da dura realidade das ruas? As vezes, ou quase sempre, os comentários desse blog são muito mais reveladores do que o próprio post. Cada blog tem uma cara, aqui esse é o espírito da coisa: os comentários dos internautas.
Nesses dias que a chapa esquenta tanto neste Brasil varonil, não vejo melhor tradução das ruas do que esse mail que recebi do Vandirson Fonseca, velho e atuante internauta desse Blog, desde a rádio Brasil 2000. Vandirson é morador da periferia desta cidade, com discurso pontiagudo, certeiro e poético da melhor linhagem do rap paulista. Na fase atual desse blog, raramente ele aparece por escrito nos comentários pois trabalha numa empresa em Guarulhos que bloqueia o acesso ao UOL. Por isso, faço do e-mail dele, o meu post de hoje. Fala aí, Vandirson:
“E aí meu truta Marcelo Tas, tô voltando de férias ainda meio atordoado. Tá foda na rua irmão, vê a rapazeada morrendo na bala, até disbaratina um pouco de politica, vc vê a policia só como aparelho de repressão, recolhendo os corpos. Na televisão o pobre virou suspeito nos programas de final de tarde, a realidade tá lá crua e o mundo segue sangrando, enquanto o negocio do estado estiver só com olho na repressão e alguns supostos espertos de plantão se aproveitando e vendendo jornais.
É, acho que foi o fim de Alice no País das Maravilhas. É com extrema frustração que vamos descendo a ladeira, mais um dia de trampo, transporte público repugnante, transito caótico e esperança nula, a decepção é principalmente porque viramos só números pra elite política desse país.
O mais revoltante é porque nossos políticos são tão sovinas e mesquinhos. O descaso é tão gritante que deixa a sociedade perplexa, preocupados em demonstrar que o país vai na bem televisão. Me revolta ver a invasão de favelas pelo estado, esses grandes canalhas públicos não dão a condição da inclusão e muito menos de cidadão, acho que o estado está em guerra contra o verdadeiro povo. Se for um pobre favelado ele será suspeito em qualquer blitz.
O cidadão favelado vê a policia invadindo a favela pra câmeras televisivas. É mais uma revolta em nome do suposta guerra de traficantes. Mas quem tá no meio é gente sofrida e trabalhadora, que só sabe votar e esperar que um dia o tratamento seja digno. Não damos dignidade ao povo nem no viés mais cruel da vida que é morte. Certamente enquanto um jovem peregrinou nessa sua vida, as desigualdades foram muito mais absurdas, do que quando chegou a policia jogou o corpo dele dentro do chiqueirinho e não perguntou se tinha pai, mãe ou ente querido. Morreu mais um vagabundo, se na hora da morte está assim “Amém”, só resta pra molecada de periferia comentar na banca “É vida loca Jão”.”
Escrito por Marcelo Tas às 09h10