
Parcipei da abertura, ontem, terça, do Media On, seminário internacional de jornalismo online, em São Paulo. Minha tarefa era provocar o palestrante Michael Roseblum, sócio de Al Gore na Current TV e produtor de conteúdo para veículos como a BBC, Discovery e Oxygen. Mas acabei invertendo o papel com Michael, que é um provocador nato. Além de excelente contador de histórias, o rapaz também é um eficiente vendedor de sua própria empresa- a RosenblumTV- que implanta sistema de comunicação digital- com ênfase em video- em “velhas” empresas de comunicação analógicas.
O mantra de Mr. Rosenblum: as grandes corporações de comunicação vão morrer. Ou, já morreram e não sabem. Que o futuro é lap top e câmera na mão e uma idéia na cabeca. Well… acho que já ouvi isso antes.
A provocação do Michael é legal mas o que me interessa nessa conversa continua sendo ela: a história que temos para contar. Desde o finado Shakespeare, os contadores de alguma forma estiveram ligados a “corporações” ou ao estado para produzir e publicar suas histórias. Hoje, aou daqui a pouco, não vamos depender de mais ninguém? Pode ser, pode não ser. Ou o Google, que conecta todas as ditas buscas “independentes” não é uma corporação? Para mim essa discussão não é central. O que importa é não perder o rumo da prosa.
Hoje vivemos uma situação paradoxal. Tem gente vendendo a idéia que tudo é de graça. Facinho de fazer. Custo zero, feito pelo usuário. Mas vai perguntar para a audiência se, além dos blogs e do YouTube, ela não gosta de ver Lost, os desenhos da Pixar, o CQC, o Caldeirão do Huck, a cobertura da CNN das eleições, ou mesmo ler o que a Economist vai falar sobre o pré-Sal do Lula?
Yes, Michael, penso que o buraco é mais espalhado do que embaixo. Sim, assistimos uma acelerada democratizacão dos meios de produção e publicação, ok. Mas enquanto isso o telespectador-internauta-leitor se torna cada vez mais exigente. Quer histórias que o surpreendam em meio à avalanche de informação. Isso requer bons contadores de histórias- jornalistas, escritores, roteiristas, atores, repórteres…- e ao mesmo tempo, enquanto todo mundo fala em custo zero para a molecada digital, a ficha técnica de um videogame é mais extensa que os créditos do Star Wars.
Contar histórias- principalmente com imagens em movimento- demanda recursos e talentos. Sempre foi assim. Paradoxalmente, enquanto alguns, como Rosenblum, vendem a idéia de que tudo está ficando grátis, prender a atenção do usuário custa cada vez mais caro.
Em resumo, foi uma noite bastante quente e cheia de provocações inquietantes. Fora do microfone, Michael me contou e divido aqui com vocês que Mr. Al Gore é um homem muito inteligente mas atrapalhado quando a interatividade é real, de carne e osso. Passar três dias na fazenda dele na criação da Current TV, foi uma das coisas mais desconfortáveis que já experimentei na vida, garantiu o Michael. É, a vida real traz mais mistérios e é mais banda larga que a internet. Ainda bem.
PS: Mais informações sobre o nosso encontro e outros eventos do Media on, você encontra aqui.
Escrito por Marcelo Tas às 09h31