Acordei cedo preparada para me ver morta – e virar um zumbi. Xarope de romã, corante, achocolatado e mel. Receita incrível para o meu sangue artificial. Preparei um litro. Lambuzei a cozinha. Pintei uma camisa velha embaixo do chuveiro. O banheiro parecia cenário de Hitchcock. Fiz uma bagunça. O chinelo grudava no piso melado de vermelho. Segui tutoriais no Youtube e virei um monstro.
Fotos: Arquivo pessoal
Não tenho filhos. Moramos eu e o marido. Ele com trinta e tantos. Eu com quase trinta. Nossa casa não tem brinquedos. O Netflix não recomenda filmes infantis. Os documentários e telejornais são mais comuns do que filmes de ficção. Até os nossos pesadelos são baseados em fatos reais. Em uma rotina um tanto pé no chão, amanheci disposta a sair de casa feito um zumbi – ou um adolescente que errou a data do Halloween.
Estava me preparando para meu segundo dia na Comic Con Experience, o maior evento de cultura pop da América Latina. Uma reunião histérica de apaixonados por filmes, séries de TV, animes, histórias em quadrinhos e super-heróis. Grandes marcas como FOX, Disney, Mattel, Sony e Warner Bros. disputam a atenção com bonecos gigantescos, interatividades malucas e entrega de brindes. Para não falar nas celebridades que enroscavam multidões nas filas para ver seus ídolos de pertinho.
Os visitantes – mais de cem mil pessoas – oscilam as reações. Ora anestesiados, ora escandalizados. Milhares vão fantasiados de temas da cultura pop. Os mais apaixonados assumem suas versões cosplayers, quando basicamente encarnam seus personagens favoritos com trajes e comportamentos praticamente idênticos aos da ficção. Parece coisa de molecada, mas os barbados e meninas adultas pareciam marcar a maioria do público.
Meu primeiro dia na Comic Con Experience foi um choque. Eu repetia incessantemente a pergunta: “o que é isso?” Eu conhecia a Turma da Mônica, Batman, Homem Aranha e uma meia dúzia de personagens. Além deles, havia uma imensidão de outros bonecos, filmes e sei-lá-o-quê. Para cada um deles, uma legião de fãs. Youtubers de canais relacionados ao mundo nerd aglomeravam jovens que se empurravam para conseguir uma selfie com aquelas pessoas que provavelmente nunca pisaram em um estúdio de televisão. Mesmo assim, pareciam fazer mais sucesso do que um galã da novela global.
Afinal, onde eu estava quando tudo isso aconteceu? Alguém poderia me conceder uma dose de fantasia nesta tarde de quinta-feira? Decidi voltar no sábado. Desta vez, a caráter. Inspirada no filme “A Noite dos Mortos-Vivos”, de uma época quando nem existia cinema a cores, e me imaginei uma morta ambulante. Quando mais sujava de sangue, mais sangue eu colocava. Fiz hematomas. Fiquei horrível. Assustei uma vizinha no elevador e segui para o segundo dia de evento.
Publiquei um vídeo no meu Instagram da minha ferida feita com o “kit de maquiagem de terror” comprado em uma loja de presentes. Meus amigos se assustaram. Recebi uma notificação curiosa no meu perfil. Uma mensagem automática me recomendando órgãos de apoio a pessoas que praticam automutilação. Meus amigos denunciaram a imagem acreditando que aquilo era verdade. Recebi algumas mensagens inbox de familiares preocupados. Esclareci que era brincadeira e confesso que fiquei até feliz. A maquiagem passou no teste e eu tinha bons amigos que se preocupavam comigo.
Foto: Arquivo pessoal
Só depois de me transformar em um zumbi, redescobri como é divertido brincar com a imaginação. Mesmo chegando aos 30. Fugi dos fantasiados de caça-zumbis que me apontavam armas, tirei fotos com marmanjos que faziam poses assustadas ao meu lado. Até os bombeiros (bombeiros de verdade) brincaram comigo ameaçando me levar para ambulância em uma maca.
Participei do painel do Anthony Russo, diretor do Capitão América: Guerra Civil, filme que será lançado em breve. Confesso que nem conhecia o aclamado diretor, mas acabei entrando na onda. Uni meus berros ao coro escandaloso de 2,5 mil vozes histéricas enquanto exibiam cenas inéditas daquele filme que nunca imaginei ter vontade de ver. Uma adrenalina me tomou a partir de elementos completamente desconhecidos. Fui contagiada pelos fanáticos. Foi incrível.
Assumi atitudes que eu mesma julgaria estúpidas ou infantilizadas. Quer saber? Era disso que eu precisava. Um toque de imaginação entre dias de tantas notícias duras. Uma paulada na minha caretice. Uma janela criativa para observar o mundo sob um olhar mágico. Basta olharmos para a realidade cruel se não vislumbramos uma solução?
Sartre já nos alertava para a conexão entre a imaginação e a liberdade. O filósofo cantou a pedra: é a imaginação que nos permite pensar em possibilidades além da realidade em que estamos imersos. Diferente dos vegetais, nossas vidas não estão tão engessadas às condições genéticas. Uma fantasia, brincadeira ou uma bela ficção pode alimentar nossas emoções. Levar a caminhos fora da caixinha de estereótipos e regras às quais somos submetidos. Por que não acreditamos que somos heróis e vivemos em uma revista em quadrinhos? Talvez esteja aí a resposta para enigmas tão concretos da vida real.