
“Quem matou o jornal?”. É a pergunta estampada com aquelas letrinhas de sequestrador na capa da revista The Economist, a semanal mais lida pelos influentes do planeta. Inclusive por aqueles que comandam as outras revistas e jornais. Quem sabe alguns deles comecem agora a levar a internet mais a sério, já que para muitos, se a The Economist falou, a água parou, como dizia vovó.
Um professor de universidade americana até arrisca uma previsão: o último jornal do mundo será impresso no ano 2043. Morro de rir desse tipo de precisão arrogante. Mas numa coisa eu aposto, vai ser bem antes disso.
Os fatos levantados pela Economist são eloquentes:
– Nos últimos 20 anos, o número de contratados nas empresas de jornalismo tradicional caiu 18%.
– O site do jornal italiano “la Repubblica” hoje recebe 1 milhão de leitores por dia, o dobro da circulação de papel.
– No primeiro semestre de 2006, o valor dos anúncios on-line cresceram 70% nos EUA. Nem precisa dizer que estão estacionados ou em declínio há um bom tempo nos meios tradicionais.
– Nos últimos 10 anos, a fatia do bolo publicitário para jornais caiu de 36 para 30%. Prevê-se queda de mais cinco pontos até 2015.
– Por conta da internet, o jornal inglês The Guardian já tem nos EUA o equivalente a metade do seu volume total de leitores na Inglaterra!
E esta a The Economist não deu, mas um passarinho me contou: a própria The Economist já tem on-line TRÊS vezes mais assinantes do que no papel (!).
Bem, mas e daí?
O problemão é que enquanto o modelo “antigo” de jornalismo desaparece, o “novo” simplesmente ainda não existe. Ou vem sendo esculpido por jovens iniciantes, lentamente, dentro das grandes corporações de mídia, geralmente sob os raios da ciumeira dos antigos donos do pedaço, os jornalistas de papel. Será que as empresas precisam despertar essa briga? Esse braço de ferro entre o on-line e o papel? Não seria mais saudável conectar jornalistas experientes aos jovens criativos- ou vice-versa: jovens experientes com o on-line e velhos jornalistas criativos- para o desenho desse novo modelo de comunicação? Nada disso: por enquanto, na maioria das empresas a criação do negócio fica na mão de executivos. Muitos deles trabalhando sob a ameaça de perder o próprio emprego. Não é à toa que só sabem raciocinar com neurônios no formato da planilha Exel.
Então, qual o próximo capítulo da história? Vamos continuar assistindo esse longo velório do jornal com os velhos repórteres do papel chorando de saudades do téc-téc das suas antigas máquinas de escrever Olivetti? Quando o que deveria estar acontecendo é justamente o contrário: o seu renascimento! A revolução nos meios não muda a exigência da qualidade com que a notícia deve ser contada e analisada. Aliás, a internet deveria ajudar os profissionais a fazerem isso. Aliás, ela está ajudando. Aos trancos e barrancos. Eu e você sabemos: os blogs já causam um grande impacto na maneira rápida e livre como as notícias são divulgadas e comentadas. Mas, o preconceito e desinformação sobre esse fenômeno, para não falar de outros igualmente importantes, ainda é grande.
Opsss… Isso aqui era para ser apenas uma comentário rápido sobre a capa da Economist, acabou virando um tratado. Vou terminar com apenas uma ressalva. Os excelentes jornalistas ingleses cometem um lapso. Apenas citaram rapidamente perdida no meio de uma frase solta, a experiência do agregador de notícias coreano “Oh My News” (www.ohmynews.com). É a mais importante e bem sucedida experiência de jornalismo on-line do momento. Especialmente no modelo de editar e agregar colaboradores das mais variadas partes do mundo. Além do que, apesar do seu curto espaço de vida, o Oh My News já é um enorme sucesso comercial. Deveríamos todos ficar atentos aos korean boys.
Escrito por Marcelo Tas às 09h37