Surpreendentes e inspiradas as interpretaçoes de voces sobre o feriado paulista de 9 de Julho. Abaixo, vai a versao do governador de Sao Paulo. A integra esta na Folha de S. Paulo de ontem, para assinantes.
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9 de Julho
José Serra
NA MINHA infância e adolescência, a Revolução Constitucionalista de 1932 era algo muito presente. Eu conhecia pessoas e tinha professores que haviam apoiado o movimento e até participado dos combates. No colégio estadual em que estudava, eram feitos trabalhos e exposições. A bandeira paulista era hasteada com orgulho. Até competições esportivas aconteciam, como a Volta Ciclística 9 de Julho, quando dezenas de ciclistas percorriam o Estado durante quase um mês.
As gerações foram se sucedendo, e a revolução foi caindo no esquecimento. Além do tempo, a ditadura pós-1964 contribuiu para esse apagamento histórico, pois não tinha nenhuma afinidade eletiva com a defesa das liberdades democráticas e de um regime constitucional. A comemoração do 9 de Julho foi se transformando em um ato desprovido de sentido, e o movimento de 1932, empurrado para uma espécie de limbo da história.
O fato é que a abordagem do significado histórico da revolução de 1932 -que representou a maior guerra já havida dentro do território brasileiro- ficou, numa primeira fase, prisioneira de uma armadilha ideológica. Uns a identificaram com um suposto separatismo, coberto de antivarguismo, e um movimento saudoso da Primeira República. Outros, embora defendessem o 9 de Julho, o fizeram com teses reacionárias, o que facilitou a demonização do movimento. Mas a retomada de seus valores originários -a democracia e a liberdade-, dentro de suas complexidades e ambigüidades, tem merecido, felizmente, maior ênfase em anos recentes.
No seu início, o movimento não ficou restrito a São Paulo: contava com apoio em outros Estados. Mas as hesitações, de um lado, e a rápida ação do governo federal, do outro, acabaram isolando-o militarmente. Iniciada a guerra, as oposições civis nesses Estados foram silenciadas. Os interventores, nomeados pelo poder central, podiam ser demitidos a qualquer hora.
O isolamento paulista acabou permitindo que lhe fosse pespegada a pecha de “separatista”. Em momento nenhum, porém, os líderes constitucionalistas apresentaram proposta nesse sentido. A ênfase do movimento foi a defesa intransigente da “reconstitucionalização” do país e a convocação de eleições livres, com voto secreto. O Brasil vivia sob um regime de exceção, a Constituição estava suspensa, o Judiciário, sem autonomia, e o Legislativo, desativado.
Escrito por Marcelo Tas às 10h26