Hunter Thompson, um dos grandes inovadores na arte de contar uma história jornalística, enfiou uma bala na cabeça no último domingo.
A técnica de Thompson, chamada de ”gonzo journalism”, consistia em misturar a figura do repórter com o fato narrado. Justamente o contrário do que pregam alguns documentaristas que se acham a voz de Deus. Ou de jornalistas que se acham na posição mágica da simetria outorgadora da neutralidade e da verdade. Ou seja, se acham no papel do cara lá de cima, também.
Muita gente boa confunde jornalismo gonzo com pegadinha do Faustão. Este híbrido de documentar um fato misturando com o personagem subjetivo e muitas vezes ficcional do narrador gerou um novo enquadramento possível para aquilo que chamamos de realidade. Vieram novos formatos e linguagens. Já compararam minha performance como Ernesto Varela com a viagem do Hunter. Acredito que devido a alguma semelhança na cobertura de eventos políticos. Especialmente na cobertura dele da campanha política norte-americana de 1972 com a série: ”Fear and Loathing: On the Campaign Trail ’72”. Comparada com a cobertura do movimento das diretas que fiz na pele do Varela tendo como câmera meu fiel camera-man Valdeci, interpretado também gonzonicamente por Fernando Meirelles. Tudo isso, muito antes de conhecer a obra do cara, coisa que fiz recentemente, na década de 90, graças à Amazon.com e depois à Editora Conrad, que reeditou algumas de suas obras (alo molecada rebelde navegadora desse blog, leitura obrigatória!).
Esta manhã, a capa do site do The New York Times (http://www.nytimes.com/2005/02/22/books/22appr.html?_r=1) com a notícia da morte do HT me trouxe uma angústia difusa no peito e ao mesmo tempo um insight luminoso: ele está a cara do Dalai Lama!
Tão improvável quanto impossível ambos tem muito em comum. Dois caras em busca da verdade. Um através dos mantras e da viagem interior. O outro das drogas, da literatura, do ego e dos caminhos turbulentos da América selvagem.
Hunter Thompson, o caçador de si mesmo. Obrigado, boa viagem e até breve.