Numa tarde gostosa de 1998, levei um amigo, jovem filósofo alemão, para almoçar no Spot, em São Paulo. Queria que ele levasse uma impressão menos sizuda da minha cidade para Berlim, onde ele vive. Ia tudo bem. Restaurante badalado, gente bacana e bonita circulando… Até que a face do alemão se contorce de dor, fica vermelha, olhos esbugalhados… olho pelo vidro eram os seguranças de um carro forte andando pela calçada tranquilamente com as costumeiras metralhadoras automáticas a tiracolo.
Foi um pouco difícil explicar a cena para ele. Principalmente o por que de ninguém se espantar com aquilo.
Um dos efeitos didáticos do “11 de Setembro” para os países ricos é de que ninguém está a salvo da desigualdade, nem da demência que ela carrega. Desigualdade aqui significa dinheiro, mas também religião e política.
Esse terrível atentado em Madri novamente testa a nossa capacidade de encarar essa barra de uma maneira elevada, além do ódio que facilmente ele desperta. Encaro este fato, assim como o 11 de Setembro como uma prova à nossa tolerância e capacidade de discernimento, para além do bem e do mal. E não um combustível eleitoral para a ignorância-intolerância Bush, como talvez estimule.
A lembrança do almoço com o alemão me trouxe um insight concreto de como os últimos anos mudaram a face do mundo. Hoje, aquela explicação seria totamente dispensável. Nils, o jovem filósofo berlinense, já vive essa cena na Europa, nos Estados Unidos, ou em qualquer outro país bacana por ele circula com frequência, que antigamente eram imunes à desigualdade e à violência. Este é um dos efeitos didáticos da Al Qaeda. Colocar todo o mundo que se diz civilizado no mesmo barco.
Claro que isso não me faz nem um pouco simpático à atuação da rede terrorista. Ao contrário, é uma declaração de amor e compaixão à demostração comovente do povo nas ruas de Madri, como na foto acima que hoje está na capa do jornal El Pais.
Love.
Escrito por Marcelo Tas às 15h21
