Muito corajoso o texto de Clóvis Rossi na Folha de ontem, domingo.
Publico na íntegra, já que aquela edição já virou papel de embrulhar peixe, mas o assunto dele não.
Rossi é um exemplar raro de jornalista “antigo”, que de antigo não tem nada. Continua um excelente e incansável repórter. Sua reflexão deve passar pela cabeça de todos veteranos da profissão, só que ao contrário de muitos deles, Clóvis não tem pruridos de escancará-la no próprio jornal onde trabalha. Só tenho uma coisa a acrescentar ao texto. Clóvis centraliza sua reflexão no jornalismo impresso. Penso que a mesma dúvida deve ser levara para outras mídias “antigas” como TV e rádio.
Ou o jornalismo- escrito, televisionado, radiofônico, etc…- trata com respeito e atenção a gigantesca revolução que vivemos e se reinventa ou então, babau.
..::..
Folha de S. Paulo
26/11/2006
Página 2
CLÓVIS ROSSI
Férias, as últimas?
SÃO PAULO – Saio hoje de férias (até o começo de dezembro) com a sensação que deve sentir o mico-leão-dourado: a de uma espécie em vias de extinção.
Um estudioso norte-americano, que já citei neste espaço, chegou a pôr até a data do fim na lápide do jornalismo impresso (2040, salvo erro de memória).
A coisa é tão feia que a revista francesa “Marianne” está propondo a criação de uma comissão, formada por personalidades independentes, com a única tarefa de lançar “uma grande campanha nacional pela independência da imprensa”, como diz Maurice Szafran, diretor da revista. A idéia é reunir até 40 milhões (cerca de R$ 112 milhões), a serem redistribuídos a jornais em dificuldades.
Recorrer à sociedade é uma idéia bem melhor e mais sadia do que a do governo petista de dar dinheiro público para publicações “amigas”, ou seja, para o popular jornalismo chapa-branca. Ainda assim, e mesmo que o público francês compre o “bolsa-mídia”, não vai resolver o problema, O jornalismo impresso vive uma crise que é, sim, financeira, mas é acima de tudo uma crise de destino.
Explícita ou implicitamente, vivemos sob a cultura do lema do “New York Times”, qual seja, publicar “all the news that is fit to print”. Hoje em dia, todas as notícias que estão prontas para publicação aparecem antes que os jornais comecem a rodar -ou na TV, ou na internet, ou no rádio. Logo, a rigor, não há mais notícias “fit to print” que sobrevivam até o dia seguinte, quando os jornais começam a circular. É claro que sempre sobra alguma rebarba de informação exclusiva, mas é pouco para uma indústria tão cara.
O jornalismo impresso precisa reinventar seu destino. Eu tenho até alguns palpites, mas, como não passam disso, o melhor é tirar férias. Na volta conversamos.
crossi@uol.com.br
..::..
Escrito por Marcelo Tas às 23h00