Haja discernimento para entendermos a situação. Talvez para compensar suas manchetes enlouquecidas, a Folha publica na edição de hoje, entrevista precisa e fundamental- para quem quiser entender os rumos da mídia e das emissoras públicas- com Eugênio Bucci, atual presidente da Radiobrás. Que ele consiga continuar no cargo- se defender dos “cumpanheiros aloprados” do PT- depois de ter coragem de tocar em assuntos tão delicados quanto importantes.
Bucci falou à jornalista Vera Magalhães. A íntegra está aqui, para assinantes do jornal ou do UOL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2911200632.htm
FOLHA – Bernardo Kucinski escreveu artigo em que critica a condução da Radiobrás no governo Lula, dizendo que ela teve “vergonha” de ser estatal. Como responde a isso?
EUGÊNIO BUCCI – A Radiobrás e seus funcionários jamais tiveram vergonha de ser integrantes de um sistema estatal. A Radiobrás é uma estatal e, portanto, tudo que ela não pode ser é partidária. Sendo uma estatal, ela não pode se arvorar a ser porta-voz da causas que supostamente sejam abraçadas pelos integrantes do governo federal. Não pode fazer assessoria de imprensa, atuar como porta-voz do governo ou fazer propaganda de governo. Essas funções são da administração direta. O vício do governismo é uma face do partidarismo. As falas das autoridades do governo entram nas reportagens da Radiobrás entre aspas, são falas de fontes que nós ouvimos, não são parte de um programa, de uma plataforma expressa da Radiobrás. Ela não existe para assumir a defesa de autoridades, ela existe para bem informar o cidadão.
FOLHA – Como o sr. responde à crítica de que a Radiobrás deixou de construir uma “narrativa própria” do governo Lula?
BUCCI – O que significa “narrativa própria” de governo? Eu não consigo entender o significado dessa expressão. Quem teria essa incumbência é quem tem a voz do governo. Portanto, quem ocupa postos na administração direta, que é o governo por excelência. Evidentemente que não pode ser o reportariado da Radiobrás o incumbido de estabelecer tal categoria política cujos contornos eu desconheço.
FOLHA – Na crise política a Radiobrás discutiu como cobriria denúncias como o mensalão?
BUCCI – Com os escândalos de corrupção ou com a cobertura das políticas públicas, o procedimento é o mesmo. Há traços distintivos entre a cobertura geral da mídia e a da Radiobrás. A gente nunca usa uma informação em “off”, seja uma declaração, seja um extrato de um documento ou uma imagem. Tudo o que nós publicamos tem origem declarada e tem crédito. Nós não fazemos interpretação, não fazemos opinião, análise, crítica. Damos os fatos, as declarações, os contextos para que o cidadão componha a sua narrativa. Isso é fundamental para entender como nós cobrimos o mensalão: com normalidade, buscando informações oficiais em vários lugares onde isso estava sendo apurado, nas estatais, no Ministério Público ou no Congresso.
FOLHA – Houve alguma ingerência do Palácio do Planalto na Radiobrás?
BUCCI – Não. Não houve. É importantíssimo que fique claro.
Escrito por Marcelo Tas às 07h48