
Como bem sabem os que por aqui passam com alguma frequência, por conta dos meus textos, já fui taxado de tucano e de petista (para não falar de outras preferências como aquela que me levou a ser alçado ao posto de novo namorado de Gerald Thomas). Sem querer confundir, mas já confundindo, aqueles que apregoam a minha queda a favor dos “cumpanheiro” que nos governam, quero tecer aqui um dou dois comentários sobre o encontro do PT que aconteceu neste final de semana em Salvador, Bahia.
O objetivo do encontro era comemorar 27 anos do partido. E anunciar um novo encontro para Julho. Para isso foram gastos três dias. Tudo bem, não tenho nada com isso. Desde que, é claro, o dinheiro gasto seja deles. É o caso? Ou ainda é do caixa “não contabilizado”? Não tenho essa informação. Nem vi Delúbio por lá.
Mas vamos lá. Fazia tempo que eu não fuçava nas falas dos petistas sem o filtro da mídia. É um choque. Pois, ao contrário do que eles mesmos apregoam, a imprensa acaba suavizando o estilo, digamos, rústico empregado pelos líderes da estrela vermelha em seus improvisos.
Olha só como Hamilton Pereira, presidente da Fundação Perseu Abramo, abriu o encontro. “Com um brado”, segundo narração do próprio site do PT: “A raça é forte! Sobrevive e avança porque criou raízes profundas no imaginário e na consciência popular do Brasil.”
E completa: “O PT foi submetido à humilhação, à desmoralização, ao achincalhe pela mídia liberal conservadora.” Uau, nada de auto análise ou auto crítica. A culpa de tudo é da mídia, sempre a mídia. E é justamente ela, a mídia, o assunto principal do meu comentário.
Me preocupa essa paixão petista pela mídia. Sobretudo porque as vezes desconfio (será que faço parte da “mídia liberal conservadora”?) que existe uma vontade incontrolável de alguns “cumpanheiros” de controlar os meios de comunicação. Senão vejamos um trecho do documento parido no encontro, que está disponível no site do partido, sob o índex Arquivos > Resoluções : 10/02/2007 – Resolução política do Diretório Nacional do PT(http://www.pt.org.br/portalpt/)
“O debate sobre a comunicação social é fundamental para o Brasil. A democratização do país supõe a democratização da comunicação. Estruturas públicas democráticas de comunicação são fundamentais para superar o monopólio privado. A afirmação da soberania nacional exige um forte aparato de telecomunicações.”
Ops, o que seria “monopólio privado”? Para os petistas, o conjunto de empresas de comunicação é uma coisa só? Os Marinho, Civita, Saad, Frias, Mesquita, Silvio Santos e o bispo Edir Macedo são a mesma pessoa? Seria este o monopólio privado? O PT não entende que democracia também tem a ver com competição, livre e limpa, entre empresas? Com o mercado editorial criando embate de opiniões e também gerando empregos? E, sobretudo, o que significa “forte aparato de telecomunicações”? “Aparato” em si já é uma linguagem policialesca que envolve força. O adjetivo “forte” antes de aparato me deixa com arrepios de interrogação quanto às “democráticas” intenções petistas. Afinal, o que querem eles? Criar uma espécie de Rede Globo estatal? Se afirmativo, seria por decreto, ou vão ralar as décadas que a Globo ralou para chegar onde está?
Segue o texto:
“Por se tratar de um tema nacional, é importante realizar uma conferência nacional de comunicação, que reúna todos os segmentos envolvidos. O debate deve ser sobre nosso projeto nacional estratégico de comunicação social e sobre nossa política global de comunicação, abordando todos os aspectos da questão: a internet e o Comitê Gestor da Internet; a comunicação via rádio e TV; a imprensa (jornais, revistas); o papel do setor público e do setor privado; o papel da publicidade estatal; o cinema; as relações comunicação/cultura/educação; o papel da Anatel; o papel do Ministério das comunicações; a Radiobrás; a comunicação comunitária; a política de concessões.
Trata-se de um tema urgente, envolvendo no curto e médio prazo as seguintes ações:
a) a construção de um sistema público de rádio e tv;
b) a importância de uma mídia privada progressista;
c) a qualificação de nossa produção de conteúdos; e
d) mudanças no marco institucional da comunicação para as organizações sociais.”
Será que estou vendo fantasmas ou as tais ações “urgentes” podem ser resumidas em “queremos conquistar o mundo”?
Senão vejamos:
a> Sistema público de rádio e TV já existe. Começou com a TV Cultura de São Paulo. Precisa ser aperfeiçoado e ampliado. Mas tal aperfeiçoamento e ampliação passa justamente pela necessidade de tirar o controle das emissoras públicas das mãos do governo. Ou melhor, em estabelecer um equilíbrio entre a participação do estado- com recursos- e a atuação da sociedade- nas decisões sobre a programação e os rumos dessas emissoras.
b> A mídia privada- progressista ou não- não deve ser simplesmente livre? Independente de discussões partidárias.
c> O que devemos entender por “nossa produção de conteúdos”? Confesso que nunca entendo o pronome “nossa” ou “nosso” nos discursos petistas. Nunca sei se eles estão falando do partido, do governo ou do estado brasileiro. Na verdade, penso que esta é a confusão que existe dentro da cabeça deles. E não da minha. Mas não entendi essa “ação”, que mais me parece um resto de discurso abandonado no papel. Ou seria a criação da Internetbrás?
d> Idem.
Reforço: comento o assunto porque julgo de importância capital a discussão da televisão pública no Brasil. E quero aqui colaborar para entender como um partido importante, agora no poder, como o PT, pretende resolver a democratização das comunicações simplesmente com um “forte aparato” de mídia nas mãos. Ou não foi isso que eles quiseram dizer?
Foto: Ichiro Guerra
Escrito por Marcelo Tas às 09h09