Um diz que não tem conta no exterior, apesar das evidências e a tonelada de documentos provando o contrário.
O outro, imortal e dono-da-verdade-de-araque no jornal e no rádio, deu um aplique nas indenizações aos perseguidos pela ditadura e recebe no conforto do lar: R$ 23.187,90 (vinte e três mil, cento e oitenta e sete reais e noventa centavos) por mês; sem contar a tungada inicial, a guiza de RETROATIVO de R$ 1.417.072,75 (um milhão, quatrocentos e dezessete mil, setenta e dois reais e setenta e cinco centavos). Tudo pago com o dinheiro que eu e você pagamos de impostos neste país injusto e miserável. Assunto comentado aqui, em Outubro.
Tudo isso sem sofrer qualquer questionamento ou ameaça, a não ser a de falta de assunto para suas colunas ocas e sem graça.
Hoje ele se superou: datilografou o artigo que vai copiado abaixo falando sobre o assunto. Sem mencionar o seu próprio caso com o trambique. Que deve estar perturbando sua culpa cristã. Mas não o suficiente para ele abrir mão da garfada no dinheiro público. Evazivo, só reclama nas entrelinhas da “porrada” de documentos que teve que juntar para ter direito a tal mamata. Que elegância!
Diga lá, quem é o mais cara de pau: Carlos Heitor Cony ou Paulo Maluf?
..::..
CARLOS HEITOR CONY
Indenizações
RIO DE JANEIRO – O deputado José Genoino declarou ter desistido da indenização que havia postulado à Comissão de Anistia. Ficou sabendo que receberia R$ 60 mil, o que é pouco para quem lutou na guerrilha do Araguaia.
E se a indenização fosse maior? Daria tudo para o Fome Zero, o Bolsa-Família? Acredito que sim. Por essas e outras, sempre admirei Zé Genoino.
A viúva de um deputado, dos melhores de nossa história parlamentar, assassinado pela repressão, declarou na mesma ocasião que aceitará a indenização financeira, não mais para ela, mas para os filhos, como “reparação moral” pelo criminoso desaparecimento de seu marido.
Tanto a declaração de Zé Genoino como a da viúva do deputado foram publicadas no “Estadão” da última terça-feira, em extensa matéria sobre o assunto. Onde também se lê que um outro postulante sofreu o diabo, sendo obrigado a apresentar um “rosário” de documentos à Comissão de Anistia: o RG, o CPF, o título de eleitor, o atestado de residência, a certidão de óbito do parente assassinado.
A reparação moral que a viúva pediu não será feita com uma comenda, um nome de rua, escola ou fundação. Ela nada postulou para si, mas para a prole, a qual deverá receber, diz ela, o equivalente a 350 salários mínimos para cada um de seus cinco filhos. Uma reparação moral superior à reparação, também moral e financeira, do Zé Genoino, que, em boa hora, ele mandou “engavetar”.
Donde se conclui: quem examina os processos e estabelece o valor das indenizações não é o postulante, mas a lei que a Comissão da Anistia cumpre e o ministro da Justiça executa. E, para qualquer solicitação, seja de indenização moral ou não, seja para pedir um passaporte ou um cadastro bancário, o postulante tem de provar, inicialmente, que existe. E informar onde pode ser encontrado.
E depois juntar uma porrada de documentos, sentenças e fotos que a Comissão investigará para conceder ou negar a indenização.
(Publicado em 18 Nov 2004, Folha de S. Paulo)
