
Se diz que jornal antigo só serve para embrulhar peixe. Não é o caso da coluna de Ruy Castro, que vai copiada abaixo, publicada na Folha de sábado retrasado (!). Resumiu como poucos a perplexidade da nação com a pasmaceira e a impunidade.
Aliás, Ruy Castro vai estar na FLIP. Além de biógrafo de Nelson Rodrigues (“Anjo Pornográfico”, de indispensável leitura), Ruy é o responsável por organizar a sensacional reedição da obra do dramaturgo pernambucano de nascença, carioca de subúrbio de fato na vida artística.
..::..
RUY CASTRO
Fala sério
RIO DE JANEIRO – No tempo em que eu fingia que levava as coisas a sério, achava que a humanidade se dividia em duas espécies de pessoas: as que dividem a humanidade em duas espécies de pessoas e as que não dividem. Entre as que dividem a humanidade em duas espécies de pessoas, convenci-me de que a humanidade se divide em duas espécies de pessoas: as que fingem que se levam a sério e as que fingem que não se levam a sério.
Entre as pessoas que fingem que se levam a sério, a humanidade se divide em duas espécies de pessoas: as que apenas fingem que se levam a sério e as que sinceramente acreditam que se levam a sério. Entre as que apenas fingem que se levam a sério, a humanidade também se divide em duas espécies de pessoas: as que fingem muito bem que se levam a sério e as que fingem muito mal. Entre as que fingem muito bem que se levam a sério, a humanidade igualmente se divide em duas espécies de pessoas: as que nos convencem de que fingem que se levam a sério e as que não nos convencem.
Entre as pessoas que sinceramente acreditam que se levam a sério, a humanidade também se divide em duas espécies de pessoas: as que sinceramente acreditam que se levam a sério e as que apenas fingem que acreditam que se levam a sério. Entre as pessoas que sinceramente acreditam que se levam a sério, a humanidade, idem, se divide em duas espécies de pessoas: as que nos convencem de que acreditam que se levam a sério e as que não nos convencem.
Esse emaranhado verbal, que exige um sábado inteiro para ser decifrado, se aplica às discussões no Senado a respeito do senador Renan Calheiros. Quase todos os seus pares no Congresso se enquadram numa das categorias acima. Eles parecem decididamente empenhados em tirar o país do sério. Como se já não tivessem conseguido.
Enviado por Jacques Stifelman
Ilustração: “The Wild News”, da Universidade de New Mexico.
Escrito por Marcelo Tas às 09h36