
Não é à toa que se diz com frequência que no Brasil tudo é feito ao contrário. Ou pior, às avessas.
Já comentei aqui o exemplo que algumas instituições- privadas e não governamentais- oferecem ao governo de como cuidar de afazeres básicos, imediatos e urgentes como Cultura e Educação.
O SESC São Paulo, inegavelmente, é uma dessas instituições que sempre primou como exemplo de como recursos podem ser usados para fomentar cultura, educação e lazer sem paternalismos, panelinhas ou complicações burocráticas. Desde muito tempo, mas bota tempo nisso, uso o SESC como cidadão e aprendiz. Foi lá que frequentei exposições irretocáveis, shows memoráveis, grande parte deles com entrada gratuita. E também vários cursos livres, entre eles, dois que considero marcos de iniciação da minha vida artística: o primeiro em 1980, com a turma do Asdrúbal Trouxe o Trombone (Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Hamilton Vaz Pereira, Evandro Mesquita…), SESC Pompéia; e o segundo, em 1981, com o mestre Antunes Filho, SESC Consolação.
Ao longo dos anos, realizei alguns projetos em parceria e co-produção com o SESC: “Zap, o Resumo da Ópera”- SESC Ipiranga (1999); e a performance que virou peça de teatro “A História do Brasil Segundo Ernesto Varela”, acompanhada da publicação de um DVD lançado no VideoBrasil, também no SESC Pompéia, que teve distribuição gratuita para escolas e instituições ligadas ao jornalismo e ao audivisual (2003).
Nesta última ocasião, lembro de ter dito no calor do palco na estréia da peça no teatro de arena do Sesc Pompéia, que o SESC era um modelo perfeito para ser seguido e replicado pelo Brasil pelo Ministério da Cultura. Hoje, não mudo uma vírgula dessa opinião. O SESC, através de seu diretor Danilo Santos de Miranda e equipe, nos dá um exemplo de como gerir recursos de uma forma ao mesmo tempo rigorosa e livre com os artistas; e generosa com o público.
Desde 2003 não tive qualquer outro trabalho aprovado ou sequer apoiado ou patrocinado pelo SESC, infelizmente. Por outro lado, fico à vontade para oferecer esse apoio público ao SESC. nesse momento em que a instituição corre um risco gravíssimo de interferência. Ao invés de se mirar no exemplo do SESC para fazer as coisas de forma simples e eficiente, há um movimento no governo federal para tirar do SESC recursos fundamentais para a continuidade e aperfeiçoamento do exemplar trabalho realizado até aqui.
Demonstro aqui, todo meu apoio, carinho e atenção ao SESC São Paulo. Também convido a todos, público e usuários do SESC a publicarem seus apoios da forma mais eloquente possível. Que essa instituição possa continuar sendo um exemplo e também consiga se aperfeiçoar e se expandir para todos os cantos do Brasil!
Há um abaixo assinado já acolhendo apoios na internet. É só clicar aqui.
PS: publico abaixo carta pública do Diretor Regional do SESC São Paulo, Danilo Santos de Miranda.
Caros amigos e parceiros do SESC:
Gostaria de compartilhar com todos vocês o risco a que o SESC está exposto neste momento. Talvez já tenham tomado conhecimento pela imprensa: o governo federal lançou medidas para melhoria da formação técnica dos jovens brasileiros que, do modo como estão sendo propostas, por mais bem intencionadas que sejam, constituem ameaça de uma intervenção do Estado em uma entidade privada.
O projeto, em resumo, pretende rever a distribuição dos recursos do impropriamente chamado Sistema S. Determina que boa parte da arrecadação dessas entidades seja remanejada para um novo Fundo destinado à formação técnica. O fato, porém, é que as entidades do chamado Sistema S são em si resultado de Fundos já criados, lá nos anos 40, em parte, com a mesma finalidade.
O remanejamento dos recursos desses Fundos para outro novo Fundo, no entanto, implicará na restrição drástica da diversidade e do alcance da reconhecida ação do SESC, em prejuízo da educação permanente promovida diariamente a seus milhares de freqüentadores assíduos. Diante desse quadro, sinto que é meu dever dirigir-me uma vez mais a vocês, sobretudo porque estou seguro do valor desta instituição. A melhor maneira de conferir o significado de sua ação é vivenciar o dia-a-dia nas unidades (atualmente são 31, somente no Estado de São Paulo); ouvir o relato dos freqüentadores sobre a importância do SESC em suas vidas e para suas famílias; estar e usar os equipamentos e instalações de primeira qualidade, abertos a todos os estratos sociais, e participar das inúmeras atividades que abrangem um amplo arco de interesses e necessidades, reunindo um público extremamente diversificado.
Acredito que todos vocês já tiveram essa oportunidade. São, portanto, testemunhas da natureza beneficamente eficaz, engajadamente eficiente e profundamente educativa do trabalho que o SESC desenvolve há mais de 61 anos. Esse patrimônio não pode ser sacrificado no altar de prioridades transitórias, em nome das quais se engendra um prejuízo incalculável ao país. Tornar a Educação meramente técnica, burocrática e pragmática, dissociando-a do universo simbólico, subjetivo, crítico e criativo, cerne da Ação Cultural, é um evidente retrocesso, fruto de visão flagrantemente obscurantista.
Certo de que compreenderão a gravidade dessa perspectiva, escrevo a vocês, formadores de opinião, representantes de classes, artistas, pensadores, amigos e parceiros do SESC para que se manifestem, pelos meios ao seu alcance, em prol da continuidade de nosso trabalho. Um projeto que, afinal, construímos juntos.
Danilo Santos de Miranda
Diretor Regional do SESC SÃO PAULO
Escrito por Marcelo Tas às 12h51