
Ainda me espanto com a indigência intelectual brasileira.
Desde a estréia de Tropa de Elite, acompanho com uma lupa de cientista e paciência de monge birmanês, o amontoado de sandices escritas por críticos e “críticos” especialmente escolhidos para criar uma “polêmica” sobre a obra cinematográfica. De cara, desconfiei: já vi esse filme! Claro: Cidade de Deus. Lembram-se? Quando estreeou, o hoje antológico filme de Fernando Meirelles gerou a mesma confusão mental e excitação infantil entre críticos e “críticos”. Alguns profetizaram um fracasso que não veio. Outros inventaram novas expressões para teses semiológicas frouxas como os pingolins dos aposentados que jogam dominó em Copacabana.
Desta vez, pensei com cautela, será que vamos de novo atrás dessa cascata? Bem, quase fomos.
Uma parte dos coleguinhas jornalistas- aparentemente sem pauta para os inúmeros cadernos culturais a serem preenchidos- lançou a tese do filme ser “fascista”. Outros desenrolaram versões apuradas sobre a influência da pirataria no sucesso- ou fracasso- do empreendimento cinematográfico. Com direito a teorias da conspiração especulando se não teria sido os próprios produtores da película os autores de plano tão bem desenhado de marketing. Ainda outros incautos da nossa vasta mídia pátria multimídia, mais chegada a um certo rigor “jornalístico”, cobrou, vejam vocês, uma “imparcialidade” inexistente no filme!
Quá?
Sim, houve jornalista, acreditem, cobrando “imparcialidade” a uma obra de ficção! Não riam. É verdade, eu vi. Estava com minha lupa em punho e garanto que é fato.
O que ninguém tinha falado até hoje? Sobre o próprio filme.
Imagino cá com meus poucos botões que alguns desses críticos e “críticos” torçam para que o cinema brasileiro acabe de vez. Ou fique naquela letargia morna onde sempre esteve desde o Cinema Novo, restrito à mediocridade habitual de seus medalhões, a maioria em franca aposentadoria confortável. Seria uma forma de deixar os críticos e “críticos” mais calminhos. Sem a obrigação de posicionamento diante de algo instigante. Que não caiba nos parcos recursos mentais e literários deles.
Felizmente, esse fluxo de asneiras foi interrompido nesta quinta-feira, com a coluna do psicanalista Contardo Caligaris, na Folha de São Paulo. Destrinchando o filme, Contardo esclarece o sentimento difuso de culpa social que talvez explique o vacilo intelectual dos críticos e “críticos”. O meu diagnóstico seria diferente: ejaculação precoce ou diarréia crônica mental. Melhor ficar com o do doutor Caligaris, mais preciso e elegante. Não deixe de ler.
Pensei: se depois de quase um mês de buchicho do filme por aí é preciso que apareça um psicanalista para fazer a primeira crítica de verdade sobre Tropa de Elite, o filme, é porque a situação dos críticos e “críticos” de cinema brasileiro é coisa de louco.
PS: Assisti o filme na última segunda-feira. Não me parece necessário, mas não custa lembrar. Não é um documentário. É um filme de ficção. Com atores em estado de graça, performances preciosas. Poucas vezes vista nas telas do cinema tupiniquim. Destaque para o trio de coadjuvantes mais que especiais da foto acima: Caio Junqueira, André Ramiro e Milhem Cortaz- estupendos. E uma magistral atuação de Wagner Moura, protagonizando Capitão Nascimento, que o coloca definitivamente no panteão mais elevado da arte cinematográfica brasileira. Deve ser por isso que assusta tanta gente desinformada. Não tenha medo de ir ver o filme no cinema. Ele causa uma catarse que depois passa. Afinal, é apenas obra de ficção para seu entretenimento. Como outras tantas do cinemão norte-americano que nenhum dos críticos e “críticos” brasileiros ousou taxar de “fascista” ou a favor da máfia italiana em Nova York. Quem sabe Tropa de Elite possa até te fazer pensar na violência bestial e no estado de indigência mental que vivemos como “nunca antes na história desse país”.
Escrito por Marcelo Tas às 07h59