
Férias são tempos de suspensão. Suspensão de rotina, de hábitos e costumes o que consequente provoca novas oportunidades de conhecer gente diferente. As vezes, beeeeeeeem diferente.
Nessas minhas curtíssimas mas inesquecíveis férias na Bahia, esbarrei num personagem inédito no meu curriculum vitae: um banqueiro suíco!
Sim, eles existem e são de carne e osso, posso os assegurar. A figura estava disponível bem na borda da piscina da pousada em Barra Grande (sim, pertinho de onde Duda Mendonça, aquele da conta Dusseldorf, tem o seu refúgio). Levava eu um lero-lero despretencioso no final da tarde trocando informações sobre música com dois ingleses- DJs por profissão- trocando figurinha sobre o que eles carregavam no iPod e coisas assim… quando o amigo mais velho deles, um bigodudo bronzeado, com um largo sorriso, entrou no papo. Morador da parte italiana da Suíça, perto de Lugano, o distinto hóspede me contou com total sinceridade e bom humor a natureza do seu ofício: we only work with black money!
Sim, o cara só trabalha com dinheiro por baixo do pano. Na Suíça, isso é perfeitamente dentro da lei. As únicas exceções são para dinheiro proveniente de três fontes proibidas: tráfico de drogas, prostituição e comércio de órgãos humanos. “Out of that, we do business with anything and anybody”, completou o bigode.
Pergunto a meu novo “amigo”: qual a porcentagem de pessoas físicas e pessoas jurídicas no “business” dele?
Ele: 90% pessoas físicas
Eu: Tudo isso?
Ele: Tem muita gente rica nesse mundo, meu caro.
Eu: E você tem muito cliente brasileiro?
Ele: Vixe Maria, a lot (claro, que o “vixe maria” é por minha conta para tentar traduzir a interjeição ítalo-suíça com um movimento de cabeça e estalo de língua com que ele respondeu assertivamente sim para a minha pergunta ingênua)!
Cutuquei o cara para ver se ele demonstrava alguma culpa: Mas você não sabe que tem políticos e empresários brasileiros que roubam o povo para te enviar esse dinheiro?
Ele: Look, este é um problema de vocês. Colocar corruptos na cadeia. O meu trabalho é guardar bem o dinheiro dos meus clientes. E isso não é crime da Suíça. Muito pelo contrário, é o principal “business” do nosso país: banking.
Eu (insistindo): Mesmo sabendo que esse dinheiro saiu daqui ilegalmente?
Ele (seguro e tranquilo): Sabe por que tanto dinheiro sai daqui?
Eu: Hum?
Ele: Porque vocês tem as mais altas taxas de impostos do mundo. E a Justiça de vocês não pune a corrupção. Nem a grande, nem a pequena. Cansei de ver gente aqui “molhando” a mão de guarda de trânsito. Lá na Suíça, o guarda teria colocado as algemas no mesmo instante que alguém sugerisse resolver uma multa com um “cafezinho”.
O cara me cerca com todas as armas do seu canivetinho suíço. Estou quase desistindo, mas lanço meu último ataque: O que você sugere ao governo e sociedade brasileiras para resolver esse sangramento criminoso de dinheiro público?
Ele: Look… (este “look” com forte sotaque italiano dele é sempre prosseguido com um silêncio para ele ganhar um tempinho para enviar a resposta), sabe qual o país do mundo que mais nos envia dinheiro sujo de corrupção?
Eu: Hum?
Ele: A Itália. Sabe quanto dinheiro voltou para a Itália há cerca de três anos quando eles resolveram perdoar sonegação de impostos desses mega milionários?
Eu: Hum?
Ele: De cara, 30 bilhões de Euros. Penso que vocês conseguiriam muito mais.
Eu: Obrigado pelo conselho. O senhor aceita mais uma caipirinha?
Ele: Yes, grazie.
Escrito por Marcelo Tas às 12h18