
A multidão de loucos por livros deixou a Tenda dos Autores gemendo de prazer: “foi a melhor palestra do dia, o cara é genial”.
Era o encontro do norte-americano Jim Dodge, poeta e diretor do programa de Escrita Criativa da Humboldt State University, na Califórnia, com o jornalista e escritor inglês Will Self. O “genial” ficou para este último.
Foi justamente a figura dele que me atraiu até a mesa “Sobre Patos e Macacos”, que teve início as 17h em ponto e acabou um pouco depois do horário previsto com aquele “ohhhhh” que a platéia do Jô dedica às boas entrevistas do gordo.
Self é um autor de 45 anos que sofre com frequência cobranças de “seriedade” já que, além dos seus livros com temas excêntricos e bizarros, frequenta com regularidade alguns dos programas de rádio e TV mais irreverentes da Inglaterra. Entre eles, o “Have I Got News For You”, um dos meus preferidos.
Voz grave, em dolby stereo, que realça a pronúncia e veneno irreverente que coloca em cada uma das sílabas que saem da sua boca. Will usou e abusou de suas habilidades de comunicador para colocar a platéia no bolso.
Sua performance é uma mistura de Pedro Cardoso com Clodovil. No que se refere à habilidade de combinar a língua venenosa com um humor desconcertante, que fique bem claro. Will não é gay. Pedro Cardoso também não. E até Clodovil já nos informou uma vez que também não o é. E vamos mudar de assunto.
O inglês pontiagudo não perdeu o rebolado nem diante de uma provocação ousada disparada por alguém da platéia: “Por que vocês ingleses teimam em acreditar nessa falsa superioridade?”. Respondeu esta e outras perguntas da mesma forma que escreve seus livros: inventando um universo próprio onde navega à vontade por idéias exageradas. Falando nelas, é dele a cena onde um morto fica desesperado quando descobre que chegou do outro lado ainda com uma das piores pragas da sua fase de mortal: os dentes, em “Como Vivem os Mortos” (2005).
O poeta recluso Jim Dodge foi um excelente contraponto para Will Self. Contido, mas dono de uma visão igualmente excêntrica, também ganhou aplausos efusivos da platéia quando leu “Holy Shit, Parte 3”, poema onde lista todas as suas crenças com elegância, ironia e inteligência. A última delas a crença de que apesar de acreditar em tanta coisa, acredita acima de tudo, que a crença dele não é necessária para tudo existir.
Escrito por Marcelo Tas às 19h28