Hoje é dia de Dilma sair em defesa própria e buscar o último coelho da cartola para impedir o impeachment. A classe de artistas brasileiros antecipou de véspera uma carta de apoio à presidente afastada, mas o texto não foi lá uma obra de arte [leia o documento na íntegra]. Que tal fazer uma pausa de uma hora e meia na maratona de cobertura do impeachment para admirar a verdadeira obra prima nos cinemas. Vamos falar de frustração, poder e traição?
Woody Allen estreia no Brasil seu filme mais recente. Café Society chegou em boa hora para provocar nossas mentes efervescidas pelos dias de debates tensos. O filme conta a história de Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg), um garoto judeu de Nora Iorque, que abandona sua rotina morna para buscar emoções e sucesso em Hollywood. Vê o tio Phil (Steve Carell), homem poderoso na indústria de cinema, como um atalho para explodir profissionalmente. Mas é a paixão pela jovem Vonnie (Kristen Stewart), secretária do tio, que inspira as decisões do garoto aspirante a roteirista. O drama começa quando descobrimos que a menina era a amante do tio Phil, este que vivia em um casamento de 25 anos, mesma idade de Vonnie, sua secretária e amante.
Conduzidos por este bolo amoroso vivido nos anos de 1930, somos apresentados às frustrações profissionais, traições amorosas e conflitos que precisamos conviver ao longo da vida que pouco mudaram daquele século para cá.
Em meio a uma comemoração glamurosa em uma requintada casa noturna de Nova Iorque, personagens da alta sociedade americana é revelada pelo narrador na voz do próprio Woody Allen pelas suas histórias de traições e escândalos sexuais. A câmera que passeia entre as mesas despindo o luxo de cada papel teria um poder indecente se resolvesse dar uma passadinha por Brasilia entre os influentes homens e mulheres do bem que vão decidir nesta semana o futuro da história política do País. Imagine Woody Allen entregando as histórias mais sórdidas dos protagonistas das páginas de política do jornal de hoje.
Em uma entrevista para o jornal britânico The Guardian, Woody Allen entregou o que passa na cabeça de um homem que aos 80 anos aceita que o fim e a morte são inevitáveis. Dez anos mais velho do que Dilma, ele aborta o lado finito da vida. A hora de saber entregar o bastão e não contar com o que vem depois do fim. Woody Allen confessa que se diverte ao passear entre as pessoas ricas. Talvez ele descreva ainda melhor este sentimento pela fala do seu protagonista Bobby que se diz “metade entediado, metade deslumbrado” depois de conhecer os maiores figurões de Hollywood. Apesar de se declarar satisfeito com o enriquecimento material, confessa uma prática quase contraditória: ele aposta 100 dólares toda semana na loteria, mesmo prometendo não mudar de casa nem comprar um avião se for o sortudo premiado.
O que atrai Woody Allen é a expectativa da conferência dos números. E o conforto de nunca ter chegado perto, já que é melhor perder feio do que não levar a fortuna por causa de um número apenas faltando na cartela.
Aprendo com o diretor novaiorquino que somos mesmo uma costura de histórias de frustrações misturadas às surpresas de emoções que a vida nos reserva. O desajeitado Bobby entrega o segredo: “a vida é uma comédia escrita por um comediante sádico”. Que venha a arte para compreendermos os quiprocós e aceitarmos os encerramentos de ciclos.